13 de dezembro de 2015

Trechos do Desassossego (17)

Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. […] E esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu: Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa. 

A única comunicação tolerável é a palavra escrita, porque não é uma pedra em uma ponte entre almas, mas um raio de uma luz entre astros. […] Escrever é objectivar sonhos, é criar um mundo exterior para prémio [?] evidente da nossa índole de criadores. Publicar é dar esse mundo exterior aos outros; mas para quê, se o mundo exterior comum a nós e a eles é o "mundo exterior" real, o da matéria, o mundo visível e tangível? Que têm os outros com o universo que há em mim?

O gládio de um relâmpago frouxo volteou sombriamente no quarto largo. E o som a vir, suspenso um hausto amplo, retumbou, emigrando profundo. O som da chuva chorou alto, como carpideiras no intervalo das falas. Os pequenos sons destacaram-se cá dentro, inquietos.

Estou triste de sentir, e reflicto-o à janela ao som da água que pinga e da chuva que cai. Tenho o coração opresso e as recordações transformadas em angústias.

Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: e aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. E todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.



Bernardo Soares – Livro do Desassossego



13 de novembro de 2015

Os Deuses da Incerteza


Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.




Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


–– Ricardo Reis


31 de outubro de 2015

Swan Song


Muitas vezes, por detrás de um grande cavalo está uma grande história. Outras vezes, o cavalo conquista o respeito e a admiração dos aficionados pelo seu próprio mérito. É o caso de American Pharoah. E como todos os grandes campeões que provaram o seu valor nas pistas, o potro de três anos teve uma saída de conto de fadas das competições desportivas e deu uma enorme lição a todos quantos ainda duvidavam do seu valor. 

O potro vinha de uma derrota amarga no Travers Stakes (G1) na pista de Saratoga após ter conquistado facilmente o Haskell Invitational (G1) em Monmouth Park. Mas a derrota no Travers Stakes (G1) serviu apenas para apimentar a derradeira vitória do potro na corrida mais rica dos Estados Unidos – o Breeders' Cup Classic (G1).

"Ele deu a todos o que eles queriam ver," – disse o treinador Bob Baffert. – "Nunca vi nenhum outro cavalo igual a ele; nunca treinei nenhum outro igual a ele. Fico feliz pelo Pharoah se despedir das competições como o campeão que é."

American Pharoah fechou com chave de ouro a sua carreira desportiva, vencendo por seis comprimentos e meio, quebrando o recorde da pista de Keenland (que pertencia a Proud Maxx em 2 minutos, 5 segundos e 36 centésimos) por cinco segundos e estabelecendo um novo recorde de 2:00.07 para a distância de 2 mil metros. Conquistou a tão cobiçada Triple Crown e o Breeders' Cup Classic – uma dobradinha a que os fãs estão a chamar de Grand Slam. Ouro sobre azul – tal como todas as grandes histórias devem terminar!




Podem ver a corrida aqui:




Parabéns às ligações de American Pharoah pela vitória no Breeders' Cup Classic (G1)!


13 de outubro de 2015

Trechos do Desassossego (16)

Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases, que escrevo, durarem com louvor, eu terei enfim a gente que me "compreenda", os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado. Mas, longe de eu nela ir nascer, eu terei já morrido há muito. Serei compreendido só em efígie, quando a afeição já não compense a quem morreu a só desafeição que houve, quando vivo. Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.

Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos.

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos.

Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!

Bernardo Soares – Livro do Desassossego



13 de setembro de 2015

"A Mão Invisível"

A cada qual, como a estatura, é dada
        A justiça: uns faz altos
        O fado, outros felizes.
Nada é prémio: sucede o que acontece.
        Nada, Lídia, devemos
        Ao fado, senão tê-lo.



A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azúis que se não vêem logo.

Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube.
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.

–– Ricardo Reis


13 de agosto de 2015

Trechos do Desassossego (15)

Duas coisas só me deu o Destino: uns livros de contabilidade e o dom de sonhar.

O sonho é a pior das cocaínas, porque é a mais natural de todas. Assim se insinua nos hábitos com a facilidade que uma das outras não tem, se prova sem se querer, como um veneno dado. Não dói, não descora, não abate - mas a alma que dele usa fica incurável, porque não há maneira de se separar do seu veneno, que é ela mesma.

A meio caminho entre a fé e a crítica está a estalagem da razão. A razão é a fé no que se pode compreender sem fé; mas é uma fé ainda, porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa compreensível.

Sinto que perdi um Deus complacente, que a Substância de tudo morreu. E o universo sensível é para mim um cadáver que amei quando era vida; mas é tudo tornado nada na luz ainda quente das últimas nuvens coloridas. O meu tédio assume aspectos de horror; o meu aborrecimento é um medo. O meu suor não é frio, mas é fria a minha consciência do meu suor. Não há mal-estar físico, salvo que o mal-estar da alma é tão grande que passa pelos poros do corpo e o inunda a ele também. É tão magno o tédio, tão soberano o horror de estar vivo, que não concebo que coisa haja que pudesse servir de lenitivo, de antídoto, de bálsamo ou esquecimento para ele. Dormir horroriza-me como tudo. Morrer horroriza-me como tudo. Ir e parar são a mesma coisa impossível. Esperar e descrer equivalem-se em frio e cinza. Sou uma prateleira de frascos vazios. Contudo que saudade do futuro, se deixo os olhos vulgares receber a saudação morta do dia iluminado que finda! Que grande enterro da esperança vai pela calada doirada ainda dos céus inertes, que cortejo de vácuos e nadas se espalha a azul rubro que vai ser pálido pelas vastas planícies do espaço alvar! Não sei o que quero ou o que não quero. Deixei de saber querer, de saber como se quer, de saber as emoções ou os pensamentos com que ordinariamente se conhece que estamos querendo, ou querendo querer. Não sei quem sou ou o que sou. Como alguém soterrado sob um muro que se desmoronasse, jazo sob a vacuidade tombada do universo inteiro. E assim vou, na esteira de mim mesmo, até que a noite entre e um pouco do afago de ser diferente ondule, como uma brisa, pelo começo da minha impaciência de mim. Ah, e a lua alta e maior destas noites plácidas, mornas de angústia e desassossego! A paz sinistra da beleza celeste, ironia fria do ar quente, azul negro enevoado de luar e tímido de estrelas.

Se os homens soubessem meditar no mistério da vida, se soubessem sentir as mil complexidades que espiam a alma em cada pormenor da acção, não agiriam nunca, não viveriam até. Matar-se-iam de assustados, como os que se suicidam para não ser guilhotinados no dia seguinte.

Bernardo Soares – Livro do Desassossego



18 de julho de 2015

Pérolas de Tradução


Nota: Para este post, irei utilizar os nomes das personagens tal como foram traduzidos/adaptados/inventados na versão portuguesa.



Ah, a dobragem portuguesa do Dragon Ball…! Por onde hei-de começar?

Bem, terá de ser pelo princípio… e que São Jerónimo me alumie o caminho.



O objectivo da tradução é eliminar a barreira linguística e deixar a descoberto uma cultura até então desconhecida pelos leitores de qualquer obra. Traduzir um texto de uma língua de partida para a língua de chegada é sempre um enorme desafio e um exercício que exige imenso rigor. Em Portugal fazem-se excelentes traduções, tanto de livros como de filmes e séries. O Dragon Ball parece ter sido a excepção à regra.

Pronto, já disse! 





A série que revolucionou o anime em todo o mundo – e também em Portugal – foi muito mal tratada pelos responsáveis pela sua tradução nos diversos países por onde passou. Apesar de tudo o que lhe foi feito, Dragon Ball foi um enorme sucesso em todas as línguas. Atrevo-me a dizer que seria um enorme sucesso mesmo que fosse uma série muda. Bem, o atrevimento não é muito porque as vendas da manga falam por si! De que maus tratos falo, então?


Censura e traduções incompetentes!

Esta série icónica, clássica e amada no Japão e no resto do mundo foi sujeita a inúmeras mudanças que trucidaram o material original até o tornar quase irreconhecível.

Qualquer tradutor digno desse nome sabe que traduzir um texto não se resume simplesmente a converter as palavras da língua de partida para a língua de chegada. Para se considerar uma tradução fiel, um tradutor tem de conseguir transmitir a mesma mensagem na língua para a qual está a traduzir; caso contrário, a mensagem original perde-se e a intenção do autor torna-se insignificante.

No caso do Dragon Ball, falamos não só de censura textual como também de censura visual. O anime também foi significativamente alterado por todo o mundo, por razões diferentes: pilinhas; nudez feminina frontal; sangue; solas dos pés; canecas de cerveja; cigarros; halos; o inferno, o Sr. Popo, etc. É ridículo ver arbustos pintados na tela com o único propósito de tapar pilinhas indiscretas; soutiens pintados onde não existiam antes; batalhas sangrentas sem pinta de sangue; canecas de água com muita espuma; bolinhas luminosas a substituir os halos dos mortos; o Sr. Popo azul, etc. Nenhuma destas mudanças beneficia a história, apenas distorce a mensagem do autor.

Apenas duas destas situações me fazem vacilar nas minhas convicções: as solas dos pés e a cor do Sr. Popo. Na Ásia e no Médio Oriente mostrar a sola dos pés é considerado uma ofensa. Já nos Estados Unidos, o Sr. Popo é considerado ofensivo, dado o passado de escravatura que ainda assombra a jovem nação. Quanto à solas dos pés, ainda consigo compreender, mas mudar a cor do Sr. Popo para azul, porque alguém, algures congemina que ele é uma caricatura dos Afro-americanos é simplesmente ridículo. Se há elementos nas obras de ficção que estão sujeitos à interpretação do público, há outros que têm de ser recebidos segundo o desejo do seu autor. O Sr. Popo não representa nada que exista no mundo real. Ele nem sequer representa um ser humano! Ele é um génio (djinn) com mais de mil anos, incumbido de proteger os guardiões da Terra e viaja num tapete voador. Provavelmente ninguém se sentiria ofendido se visse que o Sr. Popo representa criaturas sobrenaturais da mitologia árabe pré-islâmica. Se alguém quiser acusar o Assistente Black de ser uma representação esteriotipada de homens de raça negra, até sou capaz de concordar, mas o Sr. Popo não, que diabos!



Funimation

O estúdio encarregue da tradução de dobragem para inglês passou por sérias dificuldades para conseguir produzir uma localização convincente, visto que não possuíam um guião em inglês que pudessem seguir. Era uma produção "americanizada", ninguém nos Estados Unidos sabia que aquele produto vinha do Japão. Foram eles que retiraram o sangue, as referências ao inferno e à morte, os halos, cortaram o número de episódios, etc. É responsabilidade deste estúdio o facto de terem censurado a série até à exaustão, esvaindo a série do seu espírito original. A música de abertura era o famoso Rock the Dragon, o compositor Bruce Faulconer foi imcumbido de criar uma banda sonora que apelasse aos gostos dos norte-americanos e os diálogos celebrizaram-se na internet como memes. Entre os quais este e este. O último re-interpretou o protagonista para apelar às crianças norte-americanas, sendo transformado numa cópia nipónica do super-homem.




AB Groupe

Este estúdio foi responsável pela produção e distribuição da série usando a tradução francesa, não só por toda a Europa, como também pela Malásia, dando origem a dobragens como a chamada "Big Green Dub", alvo de chacota por parte dos fãs mais aguerridos da série. O Dragon Ball estreou em França em Março de 1988 com os seus próprios genéricos e um guião significativamente alterado, modificando cenas importantes na série. Mudou também quase todos os nomes de personagens e ataques. Por exemplo:

Dragon balls – bolas de cristal (quem é que decidiu que as bolas do dragão eram feitas de cristal?! Será que os tradutores sabiam da influência da série de livros The Eight Dog Chronicles?)

Son Gohan (avô) – Sandokan (acho que a nossa equipa de dobragem conhece a história de Emilio Salgari.)

Son Goku – Songoku, Sangoku (eles tratam o nome como se fosse um nome com três sílabas, ao invés de um apelido e um nome próprio. Em português é pronunciado Songonku porque… motivos.)
Muten Roshi – Tartaruga Génio, Tartaruga Genial (no início, o Krillin ainda pronunciava Mestre Muten, mas com o passar do tempo passou a ser só Tartaruga Genial. Ok, esta não é das piores adaptações. O motivo da tartaruga foi preservado, mas sejam sinceros, quando ouvem este nome, pensam num deus das artes marciais, ou num protector da vida selvagem?)

Kami – Todo Poderoso (parece que referências a Deus eram proibidas.)

Piccolo Daimao – Coraçãozinho de Satã (esta não faz qualquer tipo de sentido! Se as referências a Deus não eram permitidas, para quê uma referência ao diabo? Piccolo é um demónio que quer dominar a Terra, mas tem nome de instrumento musical. Piccolo também significa pequenino em italiano. Estão a ver o que é um demónio monstruoso ter um nome destes?)

Piccolo Junior – Coraçãozinho de Satã Jr. (idem)
Mr. Satan – Hércules (será que inventaram este para não se confundir com o outro Satan, ou foi só para não assustar os fiéis?)

Kaiō-sama – Kaíbe (bem, este até nem é muito diferente…)

Majinn Boo – Bubu (o trocadilho do nome desta personagem e dos dois bruxos é com o célebre bibidi babidi boo da Cinderela. Deixaram Bibidi, deixaram Babidi… e alteraram o nome do Boo porquê?)

Kaioshin – Neptuno (Neptuno não é o Deus dos oceanos? Em Portugal, chegaram a chamar-lhe Tapion. Bela mistura, hein?)

Saiya-jins – guerreiros do espaço, super guerreiros, mega guerreiros (Esta mudança é catastrófica, dado que grande parte da série gira em torno dos Saiya-jins que, obviamente são guerreiros do espaço sideral. Como nome próprio, Saiya-jins nunca deveria ter sido traduzido, por muito que os franceses não percebessem que 'saiya' é um anagrama de 'Yasai'  vegetal em japonês – e o sufixo 'jin' quer dizer 'habitante de'. Qualquer bom tradutor sabe que os nomes próprios não se traduzem.)

Kakarotto – cachalote (não tem lógica pelo mesmo motivo da entrada anterior. Sim, o trocadilho com a palavra cenoura pronunciada em inglês perde-se por completo mas, como já disse antes, os nomes próprios não se traduzem. Aliás, os franceses dizem carotte, por isso o trocadilho faria um certo sentido.)

Kamehameha – Força Mágica, a luz infinita, a técnica da pulverização pela luz (Bem sei que 'Onda Destruidora da Tartaruga' não soa bem, mas é a tradução correcta  para além de ser o nome de um rei do Havai.)

Kaio-ken – a técnica de Kaíbe (a tradução literal seria o punho de Kaio. Sim, é uma técnica que essa divindade desenvolveu, mas… enfim!)

ChiChi – Kika (a tradução francesa não alterou o nome desta personagem, mas também não quer dizer 'mamas' em francês. Considero a nossa alteração genial. Manter esse nome em português seria uma escolha terrível. Excelente mudança, quem quer que a tenha feito!)
Tao Pai Pai – (por algum motivo, é pronunciado 'Tom' Pai Pai, o que sempre achei estranho.)
Tsurusen’nin – Corvo Genial (esta também é incompreensível para quem viu a série. Tartaruga Genial até pode fazer sentido, mas quando um mestre de artes marciais tem um grou no chapéu, onde é que está a lógica de lhe chamar 'Corvo Genial'?!)



Tivéssemos nós esperado mais um aninho ou dois e importado a tradução do Brasil e esta desgraça nunca nos teria acontecido. A única coisa boa que a AB Groupe deixou intacta foi a magnífica banda sonora de Shunsuke Kikuchi.




Novaga

A SIC adquiriu os direitos da série e começou a transmiti-la em 1995. A tradução e dobragem dos 508 episódios das três séries ficou a cargo do estúdio Novaga. Infelizmente para nós, a série que recebemos como texto de partida foi a infame versão francesa. A tradução portuguesa do Dragon Ball estava inquinada à partida. Fomos beber a um poço envenenado. O mal podia ter ficado por aí, mas a SIC resolveu censurar ainda mais a série. Com o pretexto de que era demasiado violento para as crianças, a SIC pediu aos dobradores para 'retirarem' um pouco de violência à série. Estranhamente, apesar de a série já vir censurada de França para a maioria das cenas do Tartaruga Genial, a Novaga nunca pegou num Microsoft Paint para apagar o sangue ao Goku e ao Radditz quando eles morrem no início do Dragon Ball Z, ou eliminar a cena em que Videl é brutalmente espancada pelo Spopovich no Torneio Mundial de Artes Marciais. O sangue ficou todo lá, a violência ficou toda lá. Intacta. A forma como os dobradores lidaram com a directiva da SIC foi introduzindo um elemento de comédia na série.

Então, quanto a mim, a versão portuguesa do Dragon Ball tem três questões principais:



1. A censura imposta pela SIC;

"É a Miss Portugal 97!"






A SIC não fazia a mínima ideia do que estava a comprar; não conheciam o tamanho do fenómeno japonês que fora exportado para todo o mundo. A única coisa que sabemos (pelas entrevistas que os dobradores têm dado ao longo dos anos) é que o canal privado pensava que a série era demasiado violenta para as crianças. Eles fizeram um juízo de valor relativamente ao público-alvo, estupidificaram-no e estupidificaram o Dragon Ball. Só me pergunto por que motivo não descartaram a série por completo se achavam que não era aconselhável para crianças? Ou porque não a transmitiram depois das dez da noite, em vez de passar de manhã no Buéréré?!

Eu sou contra a censura. Por princípio! Afinal de contas, após décadas de feroz ditadura, seria impossível para mim aprovar tal prática. Sempre fui contra polícias do pensamento de qualquer espécie. No Japão, as três séries do Dragon Ball passaram na Fuji TV às 7:00 da tarde de quarta-feira. Dá que pensar, não?

São demasiadas cenas em que a SIC meteu o dedo. Eis aqui algumas:

Exemplo 1: numa cena famosa do episódio 30 do Dragon Ball Z, quando o Son Goku está a esmurrar violentamente o Vegeta, a versão original tem um vilão que aguenta a pancadaria silencioso; já a nossa tem um Vegeta a dizer que o Goku lhe está a fazer cócegas.

Exemplo 2: no mesmo episódio, Vegeta mostra a Son Goku o que um guerreiro do espaço é capaz de fazer. Goku diz que está impaciente e o Vegeta responde com a célebre frase "Muito bem, será melhor que o Big Show Sic." No original, a personagem diz: "Esse seu sorriso vai desaparecer muito em breve."

Exemplo 3: No meio de uma vigorosa sessão de treino, o Son Gohan diz ao Satã: “És mau! Vilão! Feioso! Camelo! Pinguim! Cabeça de burro! Urso! Orangotango! Rinoceronte! Palerma! É o que tu és, Satã. És tu!” No original, lê-se: "Esquilo! Melancia! Gaivota! Killifish! Monstro! Vaca! Tubarão Branco! Marmelo! Maçã! Gorila! Leão! Diz tu a próxima!" Nomes de animais. Insultos de uma criança. Qual é a dificuldade de traduzir isto?

Exemplo 4: Na saga do Freezer, enquanto o vilão tortura o Vegeta, ele diz-lhe em português: "Não suporto que se riam de mim. São mariquices minhas, pronto!" No original, lê-se: "Se não te tivesses virado contra mim, não teríamos de passar por isto."

Exemplo 5: Num episódio da saga do Bubu, quando o Yakon aparece na frente do Son Goku, este diz: "É a miss Portugal 97!" No original, lê-se: "O que temos nós aqui?" Não percebo o motivo deste comentário. A fala era tão simples e, apesar da fealdade do Yakon, não há nada especialmente violento na cena. Arrancar uma gargalhada dos espectadores por conta deste monstro parece-me vagamente insultuoso para a Lara Antunes.


Estes momentos deliberadamente alterados na dobragem portuguesa não funcionam por vários motivos. O mais importante é o mood whiplash que causa. A comédia introduzida a ferros pelos dobradores atravessa as cenas dramáticas da série como um cutelo, provocando um desagradável estado de confusão emocional no espectador. Como é que alguém consegue levar a sério um vilão disposto a destruir a Terra, quando ele se comporta como um palhaço? E antes que me chamem a atenção, eu sei que a saga do Bubu vive à conta de mood whiplash, mas isso deve-se à natureza do próprio Bubu; um demónio capaz de chacinar galáxias inteiras, mas sem noção que as suas acções são erradas… Ah, e que transforma os seus adversários em doces para os comer, claro! Por estes motivos, a saga do Bubu é a menos popular de todas. Embora a comédia sempre tenha feito parte do Dragon Ball, Akira Toriyama é um mestre em combinar os elementos cómicos e dramáticos, conjugando-os para equilibrar a sua narrativa e intensificar as emoções dos espectadores. Já o humor a martelo da SIC confunde todos os elementos, deixando o espectador sem saber o que sentir. Sim, sim, já sei: temos que poupar as crianças… mas este processo de estupidificar um público que nem sequer se conhece parece-me estranho, especialmente se pensarmos que os mais ávidos espectadores do Dragon Ball eram adolescentes e adultos. Torna tudo mais descabido ainda! É como pintar bigodes na Mona Lisa.

Digam lá, não fico mais engraçada assim?
Se o Leonardo quisesse que a Gioconda usasse um bigode, provavelmente ele mesmo teria pintado um! Do mesmo modo, se Akira Toriyama quisesse que o Vegeta, o Freezer e o Cell fossem personagens cómicas, tê-los-ia escrito assim. Eventualmente, ele fartou-se de desenhar vilões carrancudos e na saga do Bubu voltou a apelar à sua veia de humorista. Por isso é que o Bubu é um vilão que ninguém leva a sério. Pessoalmente, um ser maligno que é uma força (quase imparável) da natureza e que existe com o único propósito de espalhar o caos é bastante ameaçador, mas sei que muitos fãs não concordam e não gostam desta saga. Não consigo compreender como é que um canal progressista como a SIC não se dá ao trabalho de fazer uma pesquisa sobre a franquia de Toriyama. Há ainda outro aspecto fundamental a considerar. Embora a SIC tenha adquirido os direitos da série, não é dona da mesma, pelo que não tem autoridade para fazer alterações sem o expresso consentimento da TOEI e/ou de Akira Toriyama. Além de ser uma questão legal é, acima de tudo, uma questão de respeito pela obra e pelo seu autor.


2. O sincronismo labial;

As coisas poderiam não ter sido tão más se a Novaga tivesse feito uma pesquisazinha sobre a história do Dragon Ball, mas o estúdio pecou pela mesma falta de zelo da SIC. Parte do problema prendeu-se com o facto de o estúdio receber 'pacotes' de seis episódios de cada vez. Não sabiam que o 'poço' vinha envenenado de França. Não sabiam que a tradução estava condenada à partida… nem tão-pouco sabiam o número de episódios que a série tinha. Sem contar com os filmes! Já ouvi de entrevistas com os dobradores que havia ainda outro problema: o sincronismo labial (Lip sync) não batia certo, porque o guião em português era sempre mais curto do que o japonês. Sim, a diferença entre a nossa língua e o japonês é enorne. No caso do Dragon Ball, o problema não era tanto da sincronização, mas sim do guião, que era uma grande m****!!! Desculpem… Esta tradução francesa leva-me à loucura!

Seja como for, ao contrário do que muitos julgam, Portugal tem uma grande experiência em dobragens de anime. Começou nos anos 70 com a vinda de séries como a Abelha Maia. Seguiu-se a Heidi; o Marco; As Aventuras de Tom Sawyer; A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson; Ana dos Cabelos Ruivos; Dartacão e os Três Moscãoteiros; Alice no País das Maravilhas, etc. Contrariamente ao que se pensa, experiência em dobrar séries japonesas não nos falta. É preciso dizer também que as séries que citei tiveram elencos diminutos de dobradores e foram feitas em estúdios muito pouco sofisticados. Mas isso só significa que nos tornamos experts em fazer muito com muito pouco. As dobragens da RTP são clássicas e intemporais, porque os actores que deram vida àquelas personagens eram consumados profissionais no auge das suas carreiras. 
 
Neste aspecto, o Dragon Ball tinha tudo para dar certo: um elenco de cinco de actores fabulosos. Eventualmente, a família cresceu para nove, mas a razão pela qual esta realidade é um problema no Dragon Ball é devido à extensão da série. 508 episódios e 17 filmes é um fardo muito pesado para 9 pessoas! Qualquer um destes artistas podia candidatar-se ao prémio Mel Blanc pela quantidade infindável de vozes que tiveram de fazer. 

Esta questão da tradução não é só tineta minha. O Dragon Ball chegou a Portugal no encalço do sucesso d' O Rei Leão, estreado em 1994, dando início a uma nova tradição de dobragens dos filmes da Disney. A partir deste filme, deixámos finalmente de importar as versões brasileiras (que tantas alegrias nos deram!) A versão portuguesa d' O Rei Leão foi considerada a segunda melhor a nível mundial. Foi só a confirmação de algo que todos os amantes de animação já sabiam. 

Com uma herança destas, porque é que o Dragon Ball falhou? Porque, mesmo com um teatro apinhado de bons actores, se não houver um guião a condizer com o talento, não se vai longe. E por isso é que eu acho que a SIC tratou muito mal o Dragon Ball. O lip sync sempre foi um mal menor no que toca a esta dobragem, mas os dobradores queixaram-se em entrevistas que o guião acabava, mas as personagens continuavam a mexer a boca e, por isso, eles tinham de dizer alguma coisa – encher chouriços, basicamente. Todos os estúdios que fazem dobragens devem ter uma figura cuja função é certificar-se que a tradução encaixa nos movimentos labiais das personagens e temporizar o diálogo para que a actuação do artista fique ajustada à imagem. Contudo, esta função nunca deveria ser desempenhada pelos actores! Se esse trabalho não foi feito para a dobragem do Dragon Ball, a responsabilidade é do estúdio Novaga. A falta de pesquisa e o guião medíocre foram os pregos no caixão. E mesmo assim, a série foi um sucesso estrondoso.

Já ouvi a algumas pessoas dizerem que o mérito do sucesso é dos dobradores e do humor que introduziram na série. Se assim fosse, então qual seria a explicação para o magnífico sucesso que a série teve por todos os países por onde passou, especialmente no México e no Brasil onde o guião era muito melhor do que o nosso? Essa teoria simplesmente não é corroborada pelos factos que conhecemos. O Dragon Ball singrou em Portugal devido ao génio das histórias do mestre Toriyama. 



3. O 'aportuguesamento' do Dragon Ball.

Há um livro que espelha bem o que quero dizer com 'aportuguesamento'. Quem já leu este livro pensa que tudo se passa em Portugal. Na verdade, a obra foi escrita em inglês, espelhando a realidade britânica. Nestas idades, os jovens tendem a não conhecer bem a realidade cultural de outros países. Tendo isso em conta, o tradutor Mário Cordeiro trabalhou em parceria com os autores e modificou-o por completo, retirando as referências inglesas e adaptando-o para a realidade portuguesa. De resto, a história é igual à original. Vale a pena ler.

A importação de animes é como a importação do sushi. No caso do Dragon Ball, nem sequer grelharam o peixe e o fizeram acompanhar por batatinhas com azeite e alhinho. Não. Presumiram que ninguém gostaria de salmão cru com molho de soja e fizeram da série uma espécie de Bacalhau à Zé do Pipo.

É certo que não foi sempre assim. No início da série, no episódio 26 do Dragon Ball, o árbitro do Torneio Mundial de Artes Marciais diz: “Nunca visto, nem na própria SIC!” quando o Goku usa a cauda para voar para dentro da arena durante o seu combate com o Jackie Chun. Noutro momento, no episódio 223 do Dragon Ball Z, o Son Goten e o Trunks atravessam sorrateiramente a cozinha para evitar pagar o almoço. Na versão original, os monges do templo estão silenciosamente a cozinhar e a lavar a loiça até repararem nos garotos. Na versão portuguesa, os monges começam a cantarolar uma melodia conhecida de todos os portugueses: "Água Fria da Ribeira". Estes são momentos perfeitos de 'aportuguesamento' do Dragon Ball. O primeiro, porque refere o próprio canal onde a série é transmitida e o segundo por ser uma referência a uma música que está bem presente no nosso consciente colectivo, mesmo para quem nunca viu a Aldeia da Roupa Branca. Há outros momentos na saga do Cell em que o jornalista que comenta o combate diz que trabalha para a SIC e apela a Santa Catarina. Noutro momento, um apresentador de televisão faz uma referência ao "Agora ou Nunca" do Jorge Gabriel. Estes momentos descontraídos não alteram o sentido da história e em nada desvirtuam a narrativa. A isto eu chamo um 'aportuguesamento' bem feito!

Chegados aqui, penso ser necessário esclarecer algo. Na minha juventude diverti-me imenso a ver o Dragon Ball. As referências à cultura portuguesa eram a cereja no topo do bolo. A nossa dobragem era verosímil; as personagens tinham uma dicção natural (impulsionada, quiçá, pelos vários improvisos), tanto que nunca me pareceu uma mutilação da série original. Naqueles primeiros tempos em que ninguém conhecia o Dragon Ball, qualquer um acreditava que aquilo era uma série feita em Portugal de raiz. Também já em tempos idos acreditei que as minhas prendas eram trazidas pelo Pai Natal. Uma pessoa cresce, amadurece e apercebe-se da realidade das coisas. Quando se descobre essa realidade, o sentimento é de alguma revolta quando nos apercebemos que "fomos roubados" da verDadeira experiência do Dragon Ball. Depois, crescemos mais um bocadinho e fazemos as pazes com o nosso passado. Esta dobragem foi o que foi e não há volta a dar. O Dragon Ball Kai vem tarde demais rectificar o mal que foi feito à franquia.

Não creio que as inúmeras alterações que a série sofreu tenham sido feitas por despeito ao material, mas sim por ignorância. Nessa altura, a Toei não disponibilizava os scripts em inglês – os norte-americanos tiveram de traduzir das cassetes mexicanas. Vendo bem, a principal função do anime é impulsionar as vendas da manga. Os japoneses não podiam adivinhar que a série seria um sucesso tão ribombante. E, numa era em que a Internet não estava mundialmente disseminada e que não havia pelo menos duas Wikias totalmente dedicadas à franquia, não se podia esperar que os tradutores tivessem capacidade técnica para fazer uma pesquisa aprofundada sobre o tema.


bart simpson damned if you do
"Preso por ter cão, preso por não ter."

Penso que a marca Dragon Ball teria beneficiado muito se a série tivesse sido legendada. Isto faz-me pensar no mega-sucesso d' Os Simpsons. O Dragon Ball e Os Simpsons são séries paralelas em muitos aspectos. São dois verdadeiros fenómenos da televisão que acontecem em pontos opostos do globo e se espalharam rapidamente pelo mundo. Em Portugal, Os Simpsons sempre foram legendados. Conseguem imaginar outra pessoa que não a Nancy Cartwright a dar voz ao Bart Simpson? Dir-me-ão que é diferente, que se trata de uma série de comédia para adultos e esse é o motivo pelo qual se usam legendas. Concordo, mas sou de opinião que a série de Toriyama também não é para crianças. O público-alvo do Dragon Ball tem entre 12 e 18 anos. São perfeitamente capazes de ler legendas. Até é uma boa prática de leitura!

Qualquer pessoa, sem se deixar cegar pela nostalgia das vozes, conclui que não teria vindo mal ao mundo se o Dragon Ball tivesse sido legendado. Os jovens exercitariam a leitura da sua língua materna e aprenderiam Japonês ao mesmo tempo. Sim, porque foi isso que aconteceu a muitos que, como eu, aprenderam Inglês a ver Os Simpsons! E antes que me digam que, na versão original, o Son Goku parece uma velhinha e não combina com a personagem, pensem nisto: foi o próprio Akira Toriyama que escolheu a reputada actriz Masako Nozawa para encarnar o seu protagonista. Masako Nozawa tomou uma liberdade criativa com a actuação do Goku e deu-lhe um sotaque muito próprio que Toriyama incorporou posteriormente na sua manga. O Son Goku fala de uma forma muito simples, tem um sotaque rústico devido à sua ausência de educação formal e à sua simplicidade de pensamento. (O historiador Derek Padula escreveu um artigo muito interessante sobre este tema. Podem lê-lo aqui.) Para além disso, tem aquele tom sempre bem-disposto e despreocupado. Essa contribuição que Nozawa deu à personagem não foi adaptada em nenhuma das dobragens e todas elas ficaram a perder por isso. 

Não estou a tentar convencer ninguém a ficar fã da versão original, nem a repudiar a dobragem portuguesa. Quem cresceu a ouvir a voz do Henrique Feist naturalmente prefere o timbre dele. Penso que ele encarnava melhor o espírito da personagem no Dragon Ball clássico: a sua inocência, espontaneidade e jovialidade estão mais presentes aí. Quando chegamos ao Z, Feist usa um tom demasiado sério para a personagem. Enfim, gostos não se discutem, não é? O importante é que somos fãs da série! 


Sayonara, Son-kun!

13 de julho de 2015

A Partida

A Partida

Todos julgamos que seremos vivos depois de mortos.
Nosso medo da morte é o de sermos enterrados vivos.
Queremos ao pé de nós os cadáveres dos que amámos
Como se aquilo ainda fosse eles
E não o grande maillot interior que a nascença nos deu.


–– Álvaro de Campos


8 de julho de 2015

O Rei Sem Coroa – Parte 1

“O viajante ideal não tem planos fixos, nem tem pressa de chegar ao destino.” 

― Lao Tzu




Os anos 80 foram pródigos em animação japonesa inspirada em obras-primas da literatura ocidental que muita alegria deram à criançada da minha geração. Já os anos 90 trouxeram-nos uma verdadeira pedra preciosa da anime japonesa, de inspiração chinesa, pela qual o mundo se apaixonou irremediavelmente: Dragon Ball – a criação desse mestre mangaka Akira Toriyama. (Nota: os japoneses trocam a ordem do nome e do sobrenome) 


Akira Toriyama-sensei

Sim, a série que apaixonou o mundo e parou os estudantes universitários portugueses tem as suas raízes num épico da literatura chinesa do séc. XVI, intitulado Journey to the West.

Journey to the West

Esta epopeia asiática centra-se em duas personagens: o monge Xuanzang (que viaja para oeste para encontrar escrituras sagradas do Budismo) e Sūn Wùkōng, o Rei Macaco que nasceu de uma pedra nas montanhas de flores e frutos.

O Rei Macaco e Son Goku

Embora o Rei Macaco seja uma personagem periférica, esta história é omnipresente na sua terra natal e é suficientemente conhecida no Japão para os garotos japoneses reconhecerem os traços da epopeia na personagem de Son Gokū [孫悟空] (forma como os nipónicos pronunciam Sūn Wùkōng) e nos seus companheiros do mega sucesso de Akira Toriyama.


Da épica saga chinesa, Dragon Ball herdou o herói com cauda de macaco, de espírito aventureiro e indomável, bem como uma verdadeira panóplia de conceitos das três filosofias que dominam o Oriente: Confucionismo, Daoismo e Budismo 1. Contudo, para um petiz telespectador do Ocidente,(como grande parte de nós) o Dragon Ball não era mais do que uma história divertida com personagens divertidas e torneios mundiais de artes marciais com lutas emocionantes.  



Na verdade, o Dragon Ball não é nada disso. As lutas são meros motivos narrativos que ornamentam temas mais profundos. 



Antes de continuar, preciso de deixar algo bem claro: Akira Toriyama é um génio, mas ele próprio sempre admitiu que nunca fez grandes planos para a sua obra. A sua escrita é orgânica, espontânea, porque ele prefere surpreender-se a si próprio com as suas ideias ao invés de obedecer a um plano que lhe aprisione a imaginação. Enquanto artista, Toriyama é um comediante; ele adora desenhar situações divertidas e brincar não só com as imagens como também com os nomes. Todos os nomes das suas personagens são um trocadilho com uma qualquer palavra inglesa, normalmente relacionada com comida.

Então, se o criador não leva a sua criação demasiado a sério, valerá a pena analisar esta série?


Bem, lá porque o autor possa não ter reflectido aprofundadamente sobre tudo isto, não quer dizer que a manga e o animé não contenham certas características. Segundo Roland Barthes, a narrativa é independente da vida biográfica e das intenções do seu autor. Assim, não é difícil imaginar que o Dragon Ball desenvolva temas, motivos e símbolos que lhe conferem uma profundidade invulgar.



Mas antes de avançar tenho uma confissão a fazer. A nostalgia não é o único motivo que me leva a escrever este post sobre este mangaka nem sobre esta obra em particular, nem tão-pouco é por acreditar que o Dragon Ball tem um significado mais profundo que pode escapar à compreensão do seu público-alvo; na verdade, não há como não nutrir uma imensa admiração por um artista como Akira Toriyama. Um confesso preguiçoso que dizia passar grande parte da semana a divertir-se com modelos de plástico para depois escrever, desenhar e pintar 15 páginas de manga em pouco mais de dia e meio… Todas as semanas. Durante onze anos! Este esforço hercúleo equivale a 519 capítulos da manga, uma média de 7. 785 páginas. Como não admirar este artista?!

Feito o aparte e esclarecidas as intenções, vamos ao que interessa.


O kanji para Gokū
O nome que Toriyama escolheu para o seu herói é Son Gokū  É de notar que originalmente a personagem da obra de Wu Cheng'en não tinha nome. Foi baptizado de Sūn Wùkōng após completar um rigoroso treino espiritual dado por um mestre Taoista. Não é tanto um nome, senão um título que significa algo como 'discípulo que alcançou a perfeita compreensão da extinção do vazio e do não-vazio'. Trocado por miúdos, isto significa que o Rei Macaco atingiu a iluminação espiritual.

Toriyama disse que tencionava que o seu protagonista fosse um macaco, mas a referência ao épico chinês nunca foi mais do que isso: uma porta de entrada por onde os garotos japoneses pudessem entrar, um piscar de olhos do autor ao seu público para que eles reconhecessem de imediato a alusão. 

A primeira saga da manga é uma busca épica por esses mágicos objectos que, quando reunidos, dão a possibilidade de realizar qualquer desejo. Toriyama escreveu-a de forma descontraída e divertida, com muito humor à mistura. Esta era uma manga muito diferente do seu anterior sucesso, Dr. SlumpDe Journey to the West apenas ficou a cauda de macaco, o bastão mágico, a nuvem que o nosso herói usa para se deslocar e o facto das personagens viajarem para oeste. A partir daqui, as referências perdem-se na narrativa que Toriyama vai tecendo ao sabor da imaginação. Aquela primeira saga foi o início de uma viagem irregressível para ele, para nós e para a história da manga japonesa.

No final, apesar do apoio cultural de Wu Cheng'en, Dragon Ball não era uma manga particularmente popular entre os leitores. Os seus conceitos filosóficos diluíam-se no bom-humor das personagens, mas a história não parecia ser especialmente captivante.

O autor decidiu torná-la mais popular, dando início a outra saga onde introduziu o conceito do Torneio Mundial de Artes Marciais, vindo dos tempos áureos de Dr. Slump. A partir daí, o sucesso do Dragon Ball estava garantido.

Na segunda parte, irei falar detalhadamente sobre os temas, motivos e símbolos que regem a obra-prima de Akira Toriyama.


1. Os conceitos budistas e taoistas, herdados de Journey to the West, presentes na obra de Toriyama são explicados de forma esplêndida por Derek Padula, um letrado do universo Dragon Ball, que escreveu uma série de livros intitulada Dragon Ball Culture. Para os verdadeiros amantes da manga, este conjunto de seis livros é de leitura obrigatória!)