Este foi um dia que eu não esperava ver acontecer. O dia em que o país assistiu, impávido, ao mansinho retorno ao pesadelo que assolou toda uma nação durante quatro intermináveis décadas. Um passado que se julgava morto e enterrado por um golpe de flores foi, ainda mais rapidamente, desenterrado por vilões que não se consideram como tal. Afinal de contas, ninguém é vilão na sua própria história... Estes homens podem sempre afirmar, em tom paternal e com uma condescendência agonizante, que este regresso, sob uma capa de proteção às gerações mais jovens, vai melhorar a vida de todos.
Argumento bafiento de tão usado no passado, mas ninguém neste país estuda História... Ninguém se exaspera com este dia, nem sequer se inquieta com o regresso anunciado do pesadelo. Olho para trás e vejo o lápis azul partido ao meio, esmagado pelos amantes da liberdade. Por onde andarão eles? O que terão eles pensado neste dia? Estarão tão inquietos como eu? Será que ainda resta alguém neste país que ame verdadeiramente a liberdade? Ou terão todos abandonado o barco com a promessa pífia de segurança?
Antigamente havia bufos nos cafés. Hoje querem forçar-nos a chibarmo-nos a nós próprios. Porque quereria um cidadão incriminar-se voluntariamente? Não há maior censura (nem mais eficaz) do que aquela que fazemos a nós próprios por medo que a verdade incomode a quem manda. Num sistema em que a vigilância não dorme, não haverá espaços verdes para onde escapar. Hoje acordei e respirei fundo, com medo que já nem o ar me pertencesse. Observei o cãozito através da janela, abanando a cauda, sorrindo, feliz por existir. Num futuro próximo, aquele é o único ser verdadeiramente livre do país.
A minha janela para o mundo foi invadida por seres que espreitam cada uma das minhas acções. Hora após hora, dia após dia, os meus movimentos são vigiados com uma minúcia perversa. Esta gente não me conhece; aguardam apenas que eu cometa um qualquer acto que eles considerem traiçoeiro. Poderei eu saber o que entrará na lista de actos traiçoeiros? Poderei eu proteger a minha existência da vigilância constante?
Vivo num mundo em que só sobrevive quem se cala, quem não dá sinal de vida. Tento existir por entre os cliques de um rato e as palavras que ficam por escrever. É intolerável depender desta gente para tudo! Quando a vigilância for total (porque o será!) tornar-se-á impossível dormir, comer, falar ou pensar livremente... Mas as pessoas não querem liberdade – o simples facto de serem responsáveis pelas suas próprias escolhas e pelos seus próprios actos é um fardo demasiado pesado para a maioria da população que apenas anseia o abraço aconchegante do Estado paternalista.
Esse abraço irá sufocar-nos a todos...
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