31 de outubro de 2015

Swan Song


Muitas vezes, por detrás de um grande cavalo está uma grande história. Outras vezes, o cavalo conquista o respeito e a admiração dos aficionados pelo seu próprio mérito. É o caso de American Pharoah. E como todos os grandes campeões que provaram o seu valor nas pistas, o potro de três anos teve uma saída de conto de fadas das competições desportivas e deu uma enorme lição a todos quantos ainda duvidavam do seu valor. 

O potro vinha de uma derrota amarga no Travers Stakes (G1) na pista de Saratoga após ter conquistado facilmente o Haskell Invitational (G1) em Monmouth Park. Mas a derrota no Travers Stakes (G1) serviu apenas para apimentar a derradeira vitória do potro na corrida mais rica dos Estados Unidos – o Breeders' Cup Classic (G1).

"Ele deu a todos o que eles queriam ver," – disse o treinador Bob Baffert. – "Nunca vi nenhum outro cavalo igual a ele; nunca treinei nenhum outro igual a ele. Fico feliz pelo Pharoah se despedir das competições como o campeão que é."

American Pharoah fechou com chave de ouro a sua carreira desportiva, vencendo por seis comprimentos e meio, quebrando o recorde da pista de Keenland (que pertencia a Proud Maxx em 2 minutos, 5 segundos e 36 centésimos) por cinco segundos e estabelecendo um novo recorde de 2:00.07 para a distância de 2 mil metros. Conquistou a tão cobiçada Triple Crown e o Breeders' Cup Classic – uma dobradinha a que os fãs estão a chamar de Grand Slam. Ouro sobre azul – tal como todas as grandes histórias devem terminar!




Podem ver a corrida aqui:




Parabéns às ligações de American Pharoah pela vitória no Breeders' Cup Classic (G1)!


27 de outubro de 2015

Something To talk About



No mundo das adaptações, esta é uma das melhores que eu já vi. ”About a Boy” adapta o romance de Nick Hornby com elegância e aquele humor deliciosamente britânico. 

O filme progride naturalmente com um ritmo envolvente, sem momentos desinteressantes. 

Hugh Grant é um veterano da sétima arte e interpreta o Will Freeman de forma muito natural e convincente. 

O jovem Nicholas Hoult, um conhecido actor na televisão britânica, fez a sua estreia no grande ecrã e que estreia foi! Marcus, o jovem desajustado do romance de Hornby, conhece Will, um solteirão despreocupado e mulherengo, e os dois iniciam uma amizade desajeitada, mas enternecedora. 

Toni Collette interpreta Fiona, a mãe de Marcus, que educa o filho sozinha e sofre de uma depressão paralizante. 

Rachel Weisz interpreta a personagem por quem Will se apaixona. Por ela, Will é capaz de actos meio tresloucados. Só Marcus, na sua infinita sabedoria, é capaz de ajudar o solteirão a superar as suas próprias limitações e a ver a vida sob uma perspectiva totalmente nova. 

“About a Boy” é um filme sobre estes dois desajustados da sociedade londrina. 


Vale a pena ver. E rever. 

24 de outubro de 2015

Lua em Quarto Minguante

“I have absolutely no pleasure in the stimulants in which I sometimes so madly indulge. It has not been in the pursuit of pleasure that I have periled life and reputation and reason. It has been the desperate attempt to escape from torturing memories, from a sense of insupportable loneliness and a dread of some strange impending doom.” 






Esta é a capa da primeira edição desse  estrondoso sucesso da literatura juvenil portuguesa, intitulado A Lua de Joana.

     O meu primeiro contacto com este livro foi – digo-o com algum espanto – numa aula de Geografia. Não tenho memória do contexto em que puxaram o assunto mas lembro-me, como se fosse hoje, da professora ler aquele infame carta de 20 de Fevereiro de 1994 diante da turma inteira.

     Como seria de esperar, quando cheguei da escola nessa tarde, descobri que já o tínhamos, graças à popularidade d’ “O Clube das Chaves”.

     Quando Maria Teresa Maia Gonzalez escreveu A Lua de Joana, ofereceu a primeira edição juntamente com outro livro, um dos volumes d’ “O Clube das Chaves”  Uma nota na contracapa dizia: Este volume é oferecido aos compradores d O Clube das Chaves tira a Prova Real e não pode ser vendido separadamente.

     Para quem não tem esta primeira edição, A Lua de Joana foi apoiada pela TVI e pelo padre Vitor Feytor Pinto, o Alto Comissário para o Projecto Vida naquela época.

     A simplicidade da capa deste livro é o que lhe confere o seu poder narrativo. O símbolo do relógio em conjunção com o rosto da protagonista são o nosso meio de entrada na trama. E sem nos darmos conta, temos tudo o que precisamos para iniciar a leitura. 

     Joana Brito vem de uma família afluente e é uma pessoa que tem tudo para vencer na vidaAos 14 anos é uma aluna brilhante; grande jogadora de básquete; vencedora de torneios de xadrez; grande artista gráfica; tem a aprovação dos seus pares (é delegada de turma) e dos professores (é das melhores alunas da turma). A Joana tem, para todos os efeitos, um futuro brilhante pela frente! Normalmente, Deus não é tão generoso de colocar extraordinárias capacidades físicas e intelectuais no mesmo saco de ossos!

     Talvez por isso seja tão difícil compreender e perdoar um ser que, sendo possuidor uma inteligência superior, toma a ignóbil decisão de se envolver com drogas. Mas este será um julgamento injusto, se não levarmos em linha de conta as circunstâncias em que a Joana vive. A sua situação familiar, embora economicamente privilegiada, (é filha de um cirurgião plástico e de uma dona de um pronto-a-vestir) sofre de um sufocante síndrome de alienação. Joana sente que não tem ninguém com quem desabafar em casa, a não ser a Avó Ju. Os seus seus pais são viciados no trabalho e o irmão Jorge é um rebelde inadaptado com quem ela não pode trocar mais que monossílabos e grunhidos. Até agora, não parece uma situação muito diferente de tantas outras famílias portuguesas. Mas essa instabilidade familiar tornou-se avassaladora depois da sua melhor amiga, Marta, sucumbir a uma overdose.

     A perda da Marta foi um momento decisivo na vida de Joana. Incapaz de aceitar a sua morte e de comunicar a sua dor a quem lhe era mais próxima, a jovem entrou em ruptura emocional. A sua sanidade mental prende-se por esse ténue fio de cartas que ela escreve à sua melhor amiga, um acto que muitos considerariam desequilibrado (e que a própria Joana questionou, não sendo, contudo, capaz de lhe dizer finalmente adeus).

     Ela tenta aguentar-se o melhor que pode – na escola, nas actividades extracurriculares, em casa e com os seus amigos mais próximos. Ninguém pode dizer que ela não fez tudo ao seu alcance para se manter 'à tona'. Mas algo vai muito mal desde o momento em que ela começa a escrever as cartas à Marta. Uma e outra vez, ela confessa que tem dificuldades em dormir uma noite descansada devido aos pesadelos constantes que tem com a sua melhor amiga. Ainda em 23 de Outubro de 1992, ela confessa só ter dormido "no máximo, três horas". A privação de sono, além de ser um método de tortura psicológica extremamente eficaz, é também uma forma de baixar os níveis de serotonina no cérebro, o que, com o tempo, leva a vítima a uma depressão clínica.

     Se juntarmos a essa depressão latente a partida da avó Ju, percebemos que a pobre Joana está numa embrulhada emocional demasiado grande, uma espiral descendente da qual não consegue encontrar saída. O choque da perda da avó é tal que ela nem consegue chorar a sua perda. A partir desse dia 2 de Abril de 1993, a depressão da Joana acentua-se e a jovem desinteressa-se por tudo o que antes a fazia feliz.

     Só sobra uma pessoa importante na sua vida. O Diogo, irmão da Marta, e de quem ela era amiga desde que os três eram crianças, era a sua última esperança para tentar perceber o que tinha motivado a mudança radical da Marta e o seu uso de droga nos últimos três meses de vida. O Diogo sempre fora "assim como um irmão" (como ela mesma confessa) e ela não queria perder aquela amizade por nada.

     Quando a Joana entra em rota de colisão com o último amigo que lhe resta… Bem, não é preciso um génio para perceber que a corda parte sempre do lado mais fraco! Tudo começa a propósito dessa tarde de 25 de Maio de 1993, uma tarde envolta em mistério para os mais incautos, mas que grita aos ouvidos dos mais atentos… Aquele evento muda para sempre a dinâmica entre eles. Primeiro, evitam-se, não sabendo como lidar com aquela situação, mas depois entendem-se mais ou menos. Numa das suas cartas, a Joana confessa alegremente à melhor amiga que ela e o Diogo são "quase namorados"… 

     A sua relação evolui para um estranho limbo entre amizade e namoro. E é nesta profunda e enlameada incerteza que os dois vão viver, até ao dia em que o Diogo lhe pede algum dinheiro. Claro que a Joana nada de estranho  nisso, mas nesta altura o leitor começa a desconfiar da atitude…

     Nunca teremos uma resposta cabal para o facto do Diogo estar a refazer os passos da irmã e arrastar a Joana consigo nesse processo destrutivo. Estaria ele, tal como a Joana, simplesmente a tentar compreender o que fizera a irmã enverdar por aquele mesmo caminho? Ou terá sido ele impelido para o mundo das drogas numa tentativa de mitigar o sofrimento causado pelo divórcio dos pais?

     Há outra figura sinistra que entra na vida de Joana por via do Diogo: a Rita, que também havia sido amiga (?) da Marta. A Rita diz – com uma convicção desmesurada – que só consome drogas ocasionalmente e que nunca cairia no erro da Marta e sofrer uma overdose, porque tem controlo sobre o seu corpo. Isto dá que pensar… É o sonho de todo o drogado acreditar piamente que pode controlar a reacção da substância que ingere, mas a verdade é que, para se ser um consumidor casual, um ‘chipper’ como se diz em inglês, a pessoa não pode ter demónios que queira afogar. 

     Conhecem alguém assim? Se é verdade que é tecnicamente possível que haja pessoas que somente tomam drogas quando querem intensificar uma experiência boa, é mais verdade que alguém comece a consumir quando está numa fase má da vida, numa tentativa desesperada de minimizar o seu sofrimento emocional. Se essa experiência funcionar, é quase certo que a pessoa irá repeti-la. 

     Há grandes hipóteses da Rita estar apenas a mentir a si própria, tal como tantos outros toxicodependentes. Mas se levarmos a sério as suas afirmações de que ela nunca cairia no mesmo erro da Marta, que só consome ocasionalmente, então ela estaria na categoria dos “chippers”

     O único motivo que me leva a pensar que ela está em negação é pelo facto de haver poucas pessoas à face da terra que estejam bem resolvidas consigo mesmas, que não tenhas demónios interiores. Qualquer ser que sofra uma dor emocional profunda é o candidato ideal para se tornar emocionalmente dependente de drogas. Não é difícil perceber o porquê: quando se descobre um mecanismo para afogar as mágoas, rapidamente uma pessoa se entrega a esse conforto que parece real, apesar de não o ser. 

     Pela descrição da carta de 20 de Fevereiro de 1994, só podemos concluir que uma dose foi suficiente para “agarrar” a Joana, fazendo-a esquecer-se do inferno em que estava metida e, no espaço de um mês, houve uma incontrolável hemorragia de pertences (incluindo jóias) que serviam para pagar o vício. Em menos de um mês de consumo, a droga toma conta dela. Em Abril desse ano, Joana faz a sua primeira cura internada, mas rapidamente tem uma recaída. Em Maio, pede para ser internada numa clínica de reabilitação. Nenhum leitor fica indiferente a este último rasgo de lucidez. Aumenta a esperança que as coisas vão correr bem…!     

     O que é realmente assombroso nesta obra é o desfecho de toda a trama e como ele subverte por completo as nossas expectativas. Jorge Brito, descrito pela irmã como o mais problemático da família, arranja (sabe-se lá como) uma forma de lidar com os seus problemas, e a Joana… Por outro lado, é fácil pensar que a pessoa a arrastou para o vício lhe sucumba a qualquer altura, mas tal nunca acontece. Nem o Jorge se refugia em substâncias ilícitas nem o Diogo morre.

     Quanto à Joana, é óbvio que ela foi vítima de um fado insuportavelmente injusto. É mais fácil perdoá-la quando compreendemos tudo porque ela passou nos últimos dois anos de vida. Claro que ela tomou uma decisão péssima quando escolheu o caminho da auto-destruição – quer queiramos quer não, foi uma escolha dela – mas por outro lado, pode-se mesmo atribuir culpa a uma adolescente num profundo estado de depressão? Esta palavra nunca é usada no livro mas, à medida que o tempo passa, a Joana vai-nos dando várias pistas sobre o seu estado mental: a perda de interesse nos amigos, o afastamento da família, o crescente desinteresse por actividades que ela gostava, a incapacidade de se concentrar nos estudos… tudo isto são sintomas clássicos de uma depressão clínica. Ela precisava de drogas, sim, mas era de inibidores selectivos da recaptação da serotonina em vez de heroína. E isso ninguém lhe deu!

     Já vi vários comentários de leitores que se perguntavam se a Joana se tinha suicidado ou se tinha sofrido o mesmo destino da sua melhor amiga. Pode parecer confuso, visto que o final é tão abrupto. Na sua última carta, Joana dá-nos duas pistas que me fazem pensar que ela morreu de overdose; primeiro, ela sonha com uma figura que, pela sua descrição, é a Morte; segundo, ela pensa em telefonar à Rita… Os toxicodependentes em recuperação são aconselhados a afastarem-se de pessoas que invoquem neles memórias do consumo de drogas. A Joana queixa-se que o Diogo foi afastado dela porque não era “aconselhável” que eles estivessem juntos mas, na verdade, os psicólogos tomaram a decisão certa quando os afastaram.

     E depois, a Joana telefonou à Rita…

     O que é que aconteceu?

     As memórias da droga foram tão fortes que a Joana recaiu?

     Que dose terá tomado?

     Uma dose forte demais para o seu coração ou pulmões, talvez…

     Esta pergunta nunca terá uma resposta cabal, porque a autora nunca entrou em detalhes sobre o momento final da sua protagonista. Se ela não tivesse pegado no telefone, ainda podia estar viva.

     Que ironia cruel que aquele último gesto de comunicação tenha sido o catalisador da sua morte…

     É de cortar para sempre o coração… 

19 de outubro de 2015

Of Sheep and Humans

"The problem more generally is that there was too little critical thinking. This problem is known as groupthink, and it frequently occurs in long-standing, highly cohesive groups. Members of such groups often have such a strong desire to stay together and support the group that they suspend their critical thinking and reality testing. In short, they conform too much, too quickly, and too easily.
What is even stranger about groupthink is that it has a certain sort of self-inflicted quality about it. Because the members of the group are so highly motivated to get along, they may engage in selfcensorship. They may keep their concerns to themselves. After all, no one wants to rock the boat. Yet this only makes things worse. If all of the members in the group keep their concerns to themselves, then it will appear that everyone agrees, even if he or she does not. This is called the illusion of unanimity. If everyone agrees (or at least seems to), then the decision must be a good one.
The illusion of unanimity can give rise to another illusion that works something like this: “we are an extremely competent group of doctors, we have made lots of amazing diagnoses in the past, and we all agree on this latest diagnosis. How can we possibly be wrong?” This is called the illusion of invulnerability. The group convinces itself that it cannot be wrong."

House and Psychology: Humanity Is Overrated – Ted Cascio

16 de outubro de 2015

Devils Like Us

The silence spreads. I talk and must talk. So I speak to him and say to him: "Comrade, I did not want to kill you. If you jumped in here again, I would not do it, if you would be sensible too. But you were only an idea to me before, an abstraction that lived in my mind and called forth its appropriate response. It was that abstraction I stabbed. But now, for the first time, I see you are a man like me. I thought of your hand-grenades, of your bayonet, of your rifle; now I see your wife and your face and our fellowship. Forgive me, comrade. We always see it too late. Why do they never tell us that you are poor devils like us, that your mothers are just as anxious as ours, and that we have the same fear of death, and the same dying and the same agony—Forgive me, comrade; how could you be my enemy? If we threw away these rifles and this uniform you could be my brother just like Kat and Albert. Take twenty years of my life, comrade, and stand up—take more, for I do not know what I can even attempt to do with it now."
It is quiet, the front is still except for the crackle of rifle fire. The bullets rain over, they are not fired haphazard, but shrewdly aimed from all sides. I cannot get out.
"I will write to your wife," I say hastily to the dead man, "I will write to her, she must hear it from me, I will tell her everything I have told you, she shall not suffer, I will help her, and your parents too, and your child– –"


Erich Maria Remarque – All Quiet On The Western Front



13 de outubro de 2015

Trechos do Desassossego (16)

Penso às vezes, com um deleite triste, que se um dia, num futuro a que eu já não pertença, estas frases, que escrevo, durarem com louvor, eu terei enfim a gente que me "compreenda", os meus, a família verdadeira para nela nascer e ser amado. Mas, longe de eu nela ir nascer, eu terei já morrido há muito. Serei compreendido só em efígie, quando a afeição já não compense a quem morreu a só desafeição que houve, quando vivo. Um dia talvez compreendam que cumpri, como nenhum outro, o meu dever-nato de intérprete de uma parte do nosso século; e, quando o compreendam, hão-de escrever que na minha época fui incompreendido, que infelizmente vivi entre desafeições e friezas, e que é pena que tal me acontecesse. E o que escrever isto será, na época em que o escrever, incompreendedor, como os que me cercam, do meu análogo daquele tempo futuro. Porque os homens só aprendem para uso dos seus bisavós, que já morreram. Só aos mortos sabemos ensinar as verdadeiras regras de viver.

Há um grande cansaço na alma do meu coração. Entristece-me quem eu nunca fui, e não sei que espécie de saudades é a lembrança que tenho dele. Caí contra as esperanças e as certezas, com os poentes todos.

Os sentimentos que mais doem, as emoções que mais pungem, são os que são absurdos – a ânsia de coisas impossíveis, precisamente porque são impossíveis, a saudade do que nunca houve, o desejo do que poderia ter sido, a mágoa de não ser outro, a insatisfação da existência do mundo. Todos estes meios tons da consciência da alma criam em nós uma paisagem dolorida, um eterno sol-pôr do que somos.

Existo sem que o saiba e morrerei sem que o queira. Sou o intervalo entre o que sou e o que não sou, entre o que sonho e o que a vida fez de mim, a média abstracta e carnal entre coisas que não são nada, sendo eu nada também.

Quantas coisas, que temos por certas ou justas, não são mais que os vestígios dos nossos sonhos, o sonambulismo da nossa incompreensão! Sabe acaso alguém o que é certo ou justo? Quantas coisas, que temos por belas, não são mais que o uso da época, a ficção do lugar e da hora? Quantas coisas, que temos por nossas, não são mais que aquilo de que somos perfeitos espelhos, ou invólucros transparentes, alheios no sangue à raça da sua natureza!

Bernardo Soares – Livro do Desassossego



3 de outubro de 2015

A Heart Made Fullmetal

   No universo infinito das mangas japonesas, há duas obras que vale a pena conhecer como a palma da mão: Dragon Ball (a obra-prima de Akira Toriyama) e Fullmetal Alchemist (a obra-prima de Hiromu Arakawa).


Fullmetal Alchemist (2001-2010)

   Fullmetal Alchemist é uma história emocionante; a manga ideal para quem não lê mangas e o animé ideal para quem não vê animés!

   Claro que há muitas outras mangas por esse Japão fora: outras mais intrinsicamente japonesas, até. Mas Fullmetal Alchemist tem características universais que a tornaram apelativo em todos as terras por onde passou. E foram muitas! Basta dar uma vista de olhos por qualquer lista de mangas (ou animés) mais populares de todos os tempos para vermos o Fullmetal Alchemist geralmente no top 5. Hiromu Arakawa criou uma obra-prima de intensa aventura e inacabável fantasia, amada pela crítica e pelo público leitor; uma obra que apela aos sentimentos de pessoas das mais variadas origens.


   Hiromu Arakawa é o pseudónimo de Hiromi Arakawa. Tal como J. K. Rowling, a mangaka japonesa mascarou ligeiramente a sua identidade para impedir que a sua obra fosse ostracizada pelo facto de uma mulher ter escrito e ilustrado uma obra direccionada para rapazes adolescentes (Shōnen).

   Uma das razões pelas quais esta obra é tão popular é o facto da autora ter feito muito bem o seu “trabalho de casa”. As suas pesquisas em temas como: viver com deficiências físicas, a guerra, genocídio, stress pós-traumático e a ciência da alquimia conferem à sua série um toque extra de dedicação e profissionalismo. 




Sinopse

   Os irmãos Elric estudam alquimia desde besnicos. Os dois, o temperamental Edward e o pacato Alphonse, tornam-se vítimas da sua própria experiência quando tentam ressuscitar a mãe que perderam para uma doença misteriosa. O preço que pagam por arriscarem uma técnica proibida na alquimia é bastante elevado para duas crianças e deixa-os estropiados. Edward perde a perna esquerda e Alphonse perde todo o seu corpo. Desesperado por reaver a única família que lhe resta, Edward sacrifica o braço direito para fixar a alma do irmão numa armadura. Depois de salvos pela família adoptiva, Pinako e Winry Rockbell, o jovem Edward foi equipado com próteses de automail – tecnologia de ponta na nação de Amestris. Anos depois, os dois irmãos percorrem o país numa tentativa de recuperarem os seus corpos e, no caminho, vão desenterrando vários mistérios que ameaçam a sua pátria. 




Temas

   Entre as muitas questões filosóficas que Fullmetal Alchemist levanta, a mais importante é o valor da alma humana. A manga pode ser considerada uma obra de formação, um Bildungsroman gráfico. Aborda temas extraordinariamente complexos de forma estupenda. Alguns podem considerar que é um tratamento simplista mas, tendo em conta o público-alvo da manga, penso que a autora tratou destes temas com luvas de pelica. 




 O Valor de uma Alma

   A alquimia é a ciência da compreenção, desconstrução e reconstrução da matéria. Um dos motivos mais importantes da obra é o conceito de ‘troca equivalente’. Não se pode criar algo a partir do nada. A ‘troca equivalente’ é a lei fundamental da alquimia que determina que a criação de um objecto está dependente da destruição de outro objecto com as mesmas propriedades atómicas, obedecendo à lógica de que nada se perde, tudo se transforma.

   O símbolo mais completo deste conceito, contudo, é a pedra filosofal – esse poderosíssimo material que, quando usado, permite ignorar a lei da ‘troca equivalente’. Bem... não exactamente ignorar, visto que a pedra filosofal é criada a partir de vários sacrifícios humanos. Quanto valerá, então, uma alma humana para servir de combustível a tão cobiçado objecto?

   Em Fullmetal Alchemist, várias personagens ficaram com as suas almas fixadas em armaduras, incluindo o jovem Alphonse Elric. Outros são prisioneiros, alvos de experiências pelo exército. Apesar de serem vilões e de lutarem contra o Edward, o rapaz recusa-se a matá-los por ainda os considerar humanos.

   A existência do jovem Alphonse Elric é constantemente posta à prova durante a história. A sua alma é fixada numa armadura durante o grotesco ritual da transmutação humana, quando o garoto tem apenas dez anos, e aí ele fica durante os quatro anos seguintes. Durante todo esse tempo, ele é incapaz de sentir o calor de outro corpo contra o seu; incapaz de desfrutar de uma boa refeição e, sobretudo, incapaz de usufruir de uma noite de sono reparador. Qualquer outro ser humano teria caído morto se fosse forçado a manter-se acordado durante tanto tempo. Alphonse vê-se na situação impossível de passar pela vida sem poder experimentá-la, algo que o faz questionar-se se ele é ou alguma vez foi humano, e se as suas memórias são prova de que ele realmente existe, ou se não passa de um ser artificial que o irmão criou. A alma do Alphonse, presa naquela armadura, faz-nos questionar o que é que faz de nós verdadeiramente humanos.     




 Ciência vs. Fé

   Muitas personagens de Fullmetal Alchemist praticam alquimia, uma ciência exacta neste universo. No primeiro capítulo da manga, os irmãos Elric desmascaram um sacerdote do culto de Leto, que usa uma pedra filosofal para fazer ‘milagres’ e assim manipular os habitantes de Lior a sacrificarem-se por ele e pela sua religião. Mas é Rose, uma das seguidoras do falso profeta que protagoniza a cena mais marcante deste capítulo. A sua fé inabalável em Deus e no homem que prometeu ressuscitar o seu namorado faz com que ela ameace os nossos protagonistas para proteger o falso sacerdote. Edward escarnece da sua fé, garante-lhe que Deus não existe, e que a ressurreição dos mortos é impossível. Apesar da religião ter sofrido uma pesada derrota às mãos da ciência, há outros capítulos em que a ciência mostra o seu lado mais negro. 

   Capítulos depois do episódio de Lior, ficamos a saber que os alquimistas do Estado (apelidados de cães do exército) são vistos como trunfos na guerra com o povo de Ishval. Este povo profundamente religioso vê a prática da alquimia como um absoluto pecado contra o seu Deus, Ishvala. Para eles, só Deus tem o poder de criar. A tensão entre o povo de Ishval e o povo de Amestris, onde se passa a acção, conduz a uma terrível guerra de extermínio. Os Ishvalitas são chacinados com a ajuda dos alquimistas do Estado, usados como armas humanas.

   Os soldados ciclopes dos últimos capítulos (criados pelo exército e movidos por pedras filosofais) são o exemplo acabado do que cientistas ávidos de conhecimento e poder, com escassez de ética, são capazes de criar quando têm rédea solta. 






 O Ciclo de Vingança

   No capítulo 5, Alphonse impede o irmão de se vingar e matar um alquimista do Estado (Shou Tucker) pelo seu execrável crime. Esse gesto tem repercussões mais tarde quando o Edward impede a sua amiga Winry de exercer a sua própria vingança. De novo, este gesto tem repercussões quando o acto de misericórdia de Winry faz com que Scar desista da sua própria vingança contra os alquimistas do Estado. 

   A vingança é um produto resultante dos destroços de guerra. A incessante dança da morte, como lhe chamam os poetas, é de longe o maior gerador de ódio e desejo de vingança de todos os tempos.  Quem semeia ódio no seu caminho não pode esperar colher nada que não mais ódio. Scar é uma das inúmeras vítimas do genocídio levado a cabo pelo exército de Amestris em Ishvala. Não há nada mais justificável para ele do que vingar a chacina dos seus conterrâneos, assassinando todos os alquimistas do Estado… mesmo que a arma seja a que o seu Deus mais abomina – a alquimia. Scar vive a vingar a morte dos seus familiares e dos outros membros do seu povo, perseguindo e assassinando todos os alquimistas nacionais – incluindo aqueles que nunca se envolveram no conflito de Ishvala. Só quando é confrontado com a filha dos dois médicos que lhe salvaram a vida (e que ele matou durante um surto psicótico) é que Scar começa a questionar a validade das suas crenças. 

   O coronel Roy Mustang vive grande parte da história em busca do assassino do seu melhor amigo, deixando-se cegar pelo seu desejo de vingança. Os seus amigos mais próximos, e os subordinados que o vêem como um pai, temem pela sua sanidade mental. Mustang estava tão ciente do perigo de ser engolido pela sede de vingança que ordenou à Tenente Hawkeye que o matasse se ele saísse da ‘linha’ e cometesse algum acto que fosse contra os seus princípios. 






 Preconceito e Discriminação 

   Qual é a fonte de todos os preconceitos?

   Os seres humanos têm tendência a generalizar tudo. Num mundo em que as decisões se tomam numa fracção de segundo, o cérebro humano é alimentado por arquétipos, generalizações e pelo medo do desconhecido. Estas são as únicas condições para que os preconceitos e a discriminação se disseminem. Fullmetal Alchemist explora o ciclo vicioso de preconceito e discriminação entre os habitantes de Amestris e da região anexada de Ishval. Já li alguns comentários na rede que acusam o protagonista de racismo. Num momento na manga em que Edward Elric conversa com o Major Miles, um refugiado de Ishval… 


   O rapaz diz: “Quando só se pensa na etnia, o confronto é inevitável… mas se lidarmos uns com os outros como indivíduos, torna-se possível tratarmo-nos como iguais.”

   Para definir a cena em questão, o Major Miles é 1/8 Ishvalita da parte do avô, mas é igualzinho a um Ishvalita “puro”. Edward Elric, nascido e criado em Amestris, é 1/2 Amestris e 1/2 Xerxes. Esta manga é ironicamente multicultural – embora o preconceito e a discriminação ainda sejam comuns entre algumas personagens.

   Não há quaisquer resquícios de racismo nesta afirmação. Não há sequer espaço para imaginar que isso possa ser possível, apesar dos tempos em que vivemos. Normalmente, quem pensa assim, também acha que o autor d’ As Aventuras de Huckleberry Finn é um “monstro racista”.

 Para o geneticista italiano, Luigi Cavalli-Sforza, não existem “raças” diferentes no que respeita a seres humanos. Ao nível do ADN, as diferenças entre os indivíduos são mínimas. Segundo ele, essas pequenas diferenças desenvolvem-se a partir de uma selecção natural para lidar com o ambiente em que vivem. 

   Nesta lógica, como é que alguém pode reivindicar “ver raça”? As pessoas que alegam querer “lidar com os outros enquanto indivíduos” estão a tentar viver uma vida livre dessas visões limitadoras do preconceito e da intolerância.

   Escolher julgar uma pessoa com base no seu carácter, ao invés da cor da sua pele, é a concretização do sonho de Martin Luther King! Não apagaria o passado, nem o sofrimento das inúmeras vítimas, mas iniciaria uma sociedade totalmente nova. O único Ishvalita que Edward conhece até aqui é desmedidamente cruel e violento. Quando ele conhece o Major Miles, a memória do Scar perturba-lhe o espírito. Apesar do trauma dos confrontos com o Ishvalita, o Major Miles revela-se o oposto de Scar e Edward trata-o com respeito e pede-lhe desculpa pela sua atitude. É assim que começa a discriminação (quando se julga o todo pela parte), e é assim que termina (julgando cada pessoa com base nas suas próprias ações), independentemente do local de origem.  

   Hiromu Arakawa explica bem, e em poucas linhas, como se resolve este gigante problema. Enquanto as pessoas abraçarem ardentemente as suas bandeiras identitárias, não haverá no mundo nada mais do que confronto, preconceito e discriminação. Tratar todos os seres humanos como iguais e uni-los em causas comuns é a única forma de rebentar a inabalável corrente do ódio.






 O Conceito de Família 

   Fullmetal Alchemist está repleta de todos os tipos de famílias. A que dá origem a toda a acção é a família Elric – dois garotos abandonados pelo pai, que ficaram órfãos de mãe devido a uma doença misteriosa. As cenas entre Trisha Elric e os dois filhos são curtas, mas idílicas. A tentativa falhada de resuscitar a mãe pelo tabu da transmutação humana só deixou os dois irmãos juntos por um fio. Por ironia do destino (ditado pela autora, claro!), este trágico acontecimento foi o catalisador para um curioso fenómeno de “expansão familiar”. Primeiro, foram adoptados pela avó Rockbell e a sua neta Winry – elas próprias uma família fraturada pela morte dos pais da menina. De seguida, os dois irmãos tornaram-se alunos de Izumi Curtis, e com ela aprenderam artes marciais e a ciência da alquimia. Izumi tornou-se uma mãe para os dois órfãos. Mais tarde, eles foram acolhidos por membros do exército como o Major Armstrong, o Coronel Mustang e a Tenente Hawkeye. Com o passar do tempo e o intensificar das aventuras, a “família” vai crescendo e incluindo Ishvalitas, quimeras e até humúnculos como o Greed. A relação entre os aliados torna-se mais fácil com o passar do tempo e os laços de fraternidade estreitam-se. A única relação permanentemente tensa é a relação de Edward com o seu pai, Van Hohenheim. O progenitor teve uma boa razão para deixar a mulher e os filhos para trás, mas isso não significa que o seu primogénito o tenha perdoado. Apesar de tudo, Hohenheim e os dois filhos combatem o vilão principal juntos.

   Há ainda outras famílias: o Dr. Knox, um cirurgião, que passou grande parte da sua carreira a dissecar cadáveres durante a Guerra de Ishval, afastou-se da sua família por motivos de stress pós-traumático. Mesmo assim, a sua mulher e o seu filho visitam-no e querem estar com ele.

   Os guardiões da fortaleza de Briggs são mais unidos do que muitas famílias que eu conheço. Nas montanhas do norte, onde impera a lei do mais forte, os soldados de Briggs trabalham em conjunto, sob a mão de ferro da Major General Olivier Mira Armstrong. No entanto, os “ursos de Briggs” são perfeitamente capazes de sobreviver e lutar sozinhos sem orientação superior. São muito mais organizados que uma colmeia sem rainha.







 Deus, a Verdade e o Sentido da Vida 

   Deus existe? O que significa ser humano? O que é a verdade? Qual é o sentido da vida? São perguntas que nos atormentam durante toda a nossa existência neste mundo. Hiromu Arakawa debruça-se sobre estas questões, estuda-as de vários ângulos, chega às suas conclusões, mas nunca nos dá uma resposta cabal. Certamente confia no poder de raciocíno do seu público!

   A existência de deus revela-se na personagem da “Verdade”, um ser que se descreve com vários nomes; entre os quais o universo, o todo, a parte, e até o próprio visitante que comete o tabu da transmutação humana.

   Bem, quando muitos de nós pensamos em Deus, pensamos nisto:

deus, de acordo com Michelangelo
não nisto...   

A Verdade, o deus de Fullmetal Alchemist
   A “Verdade” não é como o deus abraâmico que expulsa seres humanos do paraíso por comerem um fruto; que deixa um homicídio em primeiro grau passar incólone; que transforma uma mulher numa pedra de sal por ela ter olhado para trás ou que faz apostas com o mafarrico com a vida de um dos seus mais fiéis seguidores. O deus de Fullmetal Alchemist limita-se a ficar sentado na sua dimensão branca, castigando todos os que transgridam as leis do universo, nomeadamente a lei da troca equivalente. Desde que sigam essas leis, os humanos de Fullmetal Alchemist nunca se encontram com deus – estão entregues a si mesmos.

   Em toda a história, há apenas algumas referências a deus e são feitas por dois médicos, que participaram na guerra civil, e um monge ishvalita. Quando o Dr. Knox, médico de feitio amargo, é surpreendido pela mulher e o filho, as lágrimas caem-lhe pelo rosto e ele pede a um deus que não sabe existir que lhe conceda um momento de felicidade, apesar de não se achar digno de tal.

   Tim Marcoh foi um dos médicos directamente responsável pela criação da pedra filosofal. Quando se encontra com Scar, implora-lhe que o mate e chega a considerar o ishvalita uma figura divina.

   Scar que, ironicamente, se considera “a mão de deus”, punindo os alquimistas nacionais pela sua participação na guerra de extermínio do seu povo, renuncia ao seu nome e usa alquimia para se vingar deles; duas atitudes que atentam contra a vontade do seu deus Ishvala.

   Do outro lado do espectro, Edward Elric considera-se um ateu, apesar de ter encontrado a “Verdade”.



A conversa entre ele e Rose, a devota do deus Leto, deixa claro que fé e orações de nada servem para encontrar as respostas para os grandes enigmas da Humanidade, ou mesmo encontrar um sentido para a vida. Se bem que eu não lhe chamaria agnóstico, nem mesmo ateu… Diria antes que ele é o mais jovem misoteísta da ficção! 

   Contudo, quando os irmãos vão a Rush Valley, acabam a fazer pedidos a um qualquer deus que possa existir.


   Hiromu Arakawa disse numa entrevista que a “Verdade” é uma espécie de “negativo”; um “Deus interno” ou a consciência do alquimista que a visita. Na adaptação de 2009, a “Verdade” fala com a voz do visitante e usa os pagamentos que cobrou dos alquimistas que realizaram transmutações humanas – no caso do Edward, a “Verdade” usa o braço e a perna que tirou ao garoto quando este tinha apenas 11 anos. 



   Quando a “Verdade” diz: “eu sou aquilo a que vocês chamariam de Deus” não está a afirmar categoricamente que é Deus. O conceito de ‘deus’ é uma construção humana. A “Verdade” parece existir simplesmente para supervisionar todas as transmutações realizadas por alquimistas e punir aqueles que se atrevem a entrar no domínio de Deus. 

   A maioria das religiões tem um conceito de ‘deus’ como uma figura protectora do planeta Terra em geral e da espécie humana em particular. Para os herdeiros das tradições judaico-cristãs é muito difícil conceber um deus que se mostra indiferente quanto ao destino da raça humana. A “Verdade”, pela forma como se apresenta aos alquimistas que abriram a porta, é um conceito profundamente panteísta de deus. Imaginem um organismo unicelular, de onde vem e para onde vai toda a realidade. 



   A lição mais importante de todos os aprendizes de alquimia é ‘um é o todo. O todo é um.’ Se esta lição for assimilada por bem, os aprendizes vivem uma vida boa, mas se forem incapazes de entender devidamente a lição, é provável que tenham de  pagar um preço demasiado elevado, como é o caso dos nossos jovens protagonistas. Todos os alquimistas que infringiram a lei da troca equivalente foram severamente castigados. Mesmo compreendendo a ciência por detrás do ritual proibido, nenhum deles conseguiu resolver o enigma por detrás da tentativa de ressuscitar um ser humano – como recriar uma alma. Não havendo propriamente um conceito de vida após a morte em Fullmetal Alchemist, toda a questão da alma parece ser do domínio exclusivo de Deus. A “Verdade” diz que é parte integrante de quem a visita. Se todos os seres possuem uma alma, todos eles têm a sua própria verdade e a “Verdade” é a soma de todas as partes. Esta ideia de que a “Verdade” é o próprio universo parece saída da obra de Spinoza. Não sabemos se Hiromu Arakawa se cruzou com o filósofo holandês enquanto realizava as suas pesquisas, mas é interessante pensar nisso.

   O conhecimento que se encontra na porta da Verdade, e que os alquimistas adquirem quando tentam uma transmutação humana, parece-se com o conceito teosófico dos registros akásicos: uma compilação de todo o conhecimento passado, presente e futuro.









 E a Alquimia, onde fica? 

   Ao contrário da alquimia que se pratica na manga, a alquimia do mundo real destinava-se a uma só coisa: transformar metais em ouro. Bem, uma só coisa não... afinal, a alquimia pratica-se desde o antigo Egipto, combinando elementos como filosofia e mitologia. Na Grécia, o hermetismo era uma filosofia que combinava três disciplinas: astrologia, magia e alquimia. Para os leigos, a alquimia é a arte de transformar metais comuns no único metal perfeito que existe: o ouro. Parece um conceito incrivelmente materialista e mesquinho, uma prática oculta onde impera a ganância e a sede de poder absoluto… Contudo, o que os alquimistas buscavam acima de qualquer coisa era outro tipo de ouro: um ouro espiritual. Ao contrário de Fullmetal Alchemist, onde o estudo e a prática da alquimia são tratados como uma ciência dura, no nosso mundo eram tratados como uma prática mística, uma busca por uma comunhão com Deus. O estudo desta arte era quase uma prática religiosa em si mesma, que ansiava pela regeneração e purificação da alma humana. Estas práticas ocultas saíram do Egipto e entraram pela Grécia, espalhando-se pela Europa, Índia e China, ganhando numerosos adeptos, ansiosos por encontrar a Pedra Filosofal. Também conhecida como o elixir da vida eterna, ou o veículo da iluminação espiritual, a Pedra Filosofal, de que já os gregos falavam, é uma substância que transforma metais em ouro e que simboliza a perfeição – algo a que todos os alquimistas aspiram. 

   Não deixa de ser curioso que muitos alquimistas no passado tenham sido médicos e homens de grande fé. O escritor Zosimos de Panopolis era um cristão gnóstico; Albertus Magnus era um bispo católico dominicano e Jean de Roquetaillade pertencia à ordem franciscana. A fé e a crença em Deus nunca impediram estes homens de se aventurarem numa busca menos dogmática pela iluminação espiritual. A par deles, homens das ciências exactas, como Petrus Bonus, um médico italiano; Andreas Libavius, um médico e químico alemão; Isaac Newton, matemático e físico inglês, e Paracelso, médico e astrólogo suíço também eram atraídos pela arte da alquimia.

   Esta arte não escolhia nacionalidades nem profissões. Pessoas de todos os países e áreas da vida eram irremediavelmente atraídas pela busca pela imortalidade encarnada, por uma panaceia e pela crisopeia, a transmutação de metais menores como o cobre e o aço em prata e ouro.

   Do conjunto ecléctico de pessoas que procuraram refúgio na alquimia ao longo da história, destaca-se um homem: o francês Nicolas Flamel. Embora seja impossível saber se este escrivão do séc. XV foi ou não um alquimista que encontrou a pedra filosofal e conseguiu a imortalidade, é quase certo que a sua influência está bem patente na disciplina da alquimia. 










 Os Símbolos de Fullmetal Alchemist 

   Hiromu Arakawa estudou várias obras sobre alquimia e há vários símbolos alquímicos que aparecem na manga.


Cruz de Flamel
símbolo no casaco do Edward













 
Este símbolo está ligado ao francês Nicolas Flamel e representa uma serpente crucificada, que simboliza o inconsciente humano. Os alquimistas usavam este símbolo para representar a transformação de mercúrio, o deus mensageiro, representado com asas. O símbolo em cor preta sobre um fundo vermelho faz parte do padrão do nosso protagonista.



   A cruz de Flamel está ligada à criação da pedra filosofal. Em tempos idos, acreditava-se que, para criar a pedra filosofal, a prima materia (também conhecida como quintessência) deveria ser transmutada em quatro fases:

Nigredo: significa negro e é representativo da putrefação ou decomposição dos ingredientes alquímicos até se transformarem numa matéria negra uniforme.

Albedo: significa branco. Este processo é o que se segue ao nigredo, e significa a purificação de todas as impurezas.

Citrinitas: significa amarelo. Neste estágio, é possível transmutar prata em ouro, numa acção de “dourar a consciência lunar”.

Rubedo: significa encarnado. Este é o último estágio da Magnum Opus e significa o sucesso alquímico: a criação da pedra filosofal! Os alquimistas usavam outros símbolos para se referirem a um processo alquímico bem sucedido, como um rei coroado ou uma fénix. Isso pode explicar as asas e a coroa juntamente com a cruz de flamel no casaco do Edward.


árvore da vida
   O relevo da porta do Edward é uma Árvore da Vida Sefirótica; um símbolo cabalístico criado pelo inglês Robert Fludd (um médico que estudou a obra de Paracelso). A Árvore da Vida representa a criação do Universo e todas as verdades a que o Homem aspira.


The Marrow of Alchemy

   O relevo da porta do Alphonse também lhe é único: trata-se da imagem The Marrow of Alchemy do alquimista do séc. XV, George Ripley. Este símbolo também se refere a uma Árvore da Vida cabalística, mas está ligado à crença dos chacras e da ascensão de Kundalini como energia vital.
















   A tatuagem de ouroboros que os humúnculos possuem também tem um significado esotérico. “Um é Tudo, Tudo é Um” é um dos mantras da manga. O desenho mostra uma serpente (ou um dragão alado) mordendo a própria cauda e simboliza a natureza cíclica dos elementos que governam o mundo. Os humúnculos são seres imortais, cujo poder advém das suas pedras filosofais. O hexagrama no centro da serpente nada tem que ver com o selo de Salomão. Na alquimia, o hexagrama representa a união de dois triângulos que simboliza a reconciliação de dois polos opostos: o fogo e a água. Também simboliza a união dos quatro elementos essenciais à vida: fogo, água, terra e ar.



   O símbolo nos relógios de bolso dos Alquimistas Nacionais é um dragão prateado. Na alquimia, o dragão é um símbolo que está associado aos elementos da água, da terra, do submundo e do céu.











 O Fenómeno


Fullmetal Alchemist ganhou inúmeros prémios: em 2004 ganhou o 49º Shogakukan Manga Award. Em 2010 e 2011 ganhou o Eagle Award na categoria de melhor manga, por voto popular. Hiromu Arakawa ganhou o prémio de "Novo artista", o 15º Tezuka Osamu Cultural Prize em 2011. Também em 2011, a manga ganhou o Seiun Award, para melhor livro de banda desenhada. Fullmetal Alchemist apareceu ainda nas listas de melhores romances gráficos do New York Times e do USA Today.  

Em 2015, a manga já tinha ultrapassado os 64 milhões de exemplares por esse mundo fora.

Em Portugal, não há tradução nacional desta obra… É muito triste que uma manga destas não esteja traduzida mas, para quem souber ler bem inglês, há a tradução da Viz Media. Todos os volumes estão à venda nas grandes livrarias nacionais.