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22 de junho de 2025

Fortius quo Fidelius

"Força através da Lealdade"

A Dama e o Vagabundo é um clássico intemporal que toca o coração dos espectadores, miúdos e graúdos, há 70 anos, mas por detrás desta encantadora história de dois cães de mundos diferentes, encontra-se uma obra-prima da Disney muitas vezes incompreendida. 

Já li inúmeras interpretações sobre este filme e tenho sempre a impressão que falta algo a todas elas. Não, este filme não é sobre racismo, não é sobre a luta de classes, nem sobre a exploração dos pobres e oprimidos pelos ricos e privilegiados. Sim, é uma história de amor entre dois cães de origens diferentes, mas é mais do que isso – é sobre o valor inestimável da lealdade e sobre a tensão interminável entre o individualismo e o valor da pertença num grupo.

A Dama e o Vagabundo é uma fábula que capta a dinâmica emocional de puxa-empurra da busca pela independência e do desejo de conexão, tornando-se um espelho intemporal dos nossos desejos mais profundos. Os cães são a personificação da lealdade, e a lealdade é uma das virtudes humanas mais desejadas, por isso, é natural que Walt Disney tenha usado cães para contar uma das suas histórias mais humanas. Sim, eu sei tudo sobre a cadela de Joe Grant, a Lady, e como a sua história contribuiu para a produção deste filme (mesmo que ele não tenha tido crédito), mas o filme não é sobre a cadelinha de Joe Grant.
Lady, a cadela de Joe Grant

Também não é sobre como Walt deu à sua esposa um cachorrinho numa caixa de chapéu. É sobre muito mais do que isso!


Este filme tem lugar em 1909, numa pequena cidade da Nova Inglaterra, inspirada em Marceline, no Estado do Missouri, onde Walt Disney passou os melhores anos da sua vida. Lady, uma refinada Cocker Spaniel, conhece apenas amor e carinho dos seus donos, Jim Dear e Darling. A sua compreensão de família baseia-se no conforto, segurança e respeito e o seu bem mais precioso é uma coleira que Darling lhe dá (com uma licença). Porque é que isto é tão significativo?! Bem, a coleira é um presente da sua família humana que simboliza a devoção dos donos pela Lady, mas a licença (que no filme é mostrada como uma pequena placa de identificação dourada) significa que toda a cidade sabe da ligação de Lady à sua família. Ter uma licença não é apenas cumprir a lei daquela comunidade, mas é também o bilhete de regresso a casa de um cão perdido! 


Quando Lady recebe a sua licença, o número atribuído é tudo o que é necessário para que os funcionários do canil municipal identifique os seus donos. É por isso que Jock e Trusty lhe chamam "emblema de honra e respeitabilidade". Aquela pequena etiqueta dourada simboliza o laço sagrado da lealdade entre os cães e os seus donos.


Em contraste, temos Tramp, um rafeiro perspicaz que personifica o espírito da liberdade absoluta. Ele deambula pelas ruas daquela pequena cidade, livre de uma coleira, vivendo a vida nos seus próprios termos, usando os humanos à sua volta para os seus propósitos.

Esta justaposição da existência confortável da Lady e da vida aventureira de Tramp prepara o cenário para uma exploração subtil do valor da liberdade pessoal versus lealdade. Embora a história nunca o afirme explicitamente, é claro pelas suas palavras que a desconfiança do Tramp em relação aos humanos advém da sua experiência pessoal.

Apesar de ser um rafeiro (provavelmente uma mistura de Schnauzer), vê-se que a sua cauda foi cortada. Para que isso acontecesse, um humano teve de levá-lo a um veterinário. Tramp deve ter-se sentido traído pelos donos quando estes o negligenciaram em favor do bebé e, das duas, uma: ou foi abandonado ou deixou-os por vontade própria, convencendo-se de que, depois de estragado o seu "lar feliz", estaria melhor sozinho. O laço de lealdade que o unia aos donos quebrou-se. 

Ele lida com os seres humanos da mesma forma que muitos humanos veem os cães: como uma mercadoria. Obtém o que precisa deles sem nunca se apegar a ninguém. 

Diz a Lady que "o coração humano tem um espaço limitado para o amor", por isso, quando os donos de Lady tiram férias sem ela e a tia Sarah perturba o seu idílico lar, a lealdade de Lady é posta à prova. O Tramp encontra-a do lado errado da cidade, com a cabeça enfiada numa focinheira, sozinha e aterrorizada. Ele faz tudo o que pode para a ajudar e partilha com ela os benefícios da liberdade total e de não se deixar prender a nenhuma família. Lady ouve-o sem comentar.

Esta dinâmica reflecte uma verdade universal: o fascínio da liberdade tenta os indivíduos a sair da sua zona de conforto. O seu contacto com Tramp permite-lhe experienciar a vida para além dos limites da sua casa e da sua rua, levando a momentos de profunda conhecimento interior.

O momento mais famoso do filme ilustra na perfeição como o amor os pode unir. Por entre as luzes brilhantes do exterior do restaurante do Tony, Lady e Tramp partilham um prato de esparguete com almôndegas. Esta é a cena mais famosa do filme — de todos os filmes do Walt Disney, na verdade! 
E, no entanto, há uma subtileza maravilhosa na actuação dos dois cães que conta uma história muito mais complexa.

Frank Thomas e o Tramp
Aqui faço a minha homenagem ao director de animação desta cena; ao homem que salvou a cena de ser cortada do filme. Quando Walt Disney viu os storyboards não gostou da cena; pensou que dois cães a comer esparguete não transmitiriam qualquer emoção senão comédia. Ele não queria que a cena fosse incluída no filme. Frank Thomas assumiu a animação de toda a cena só para convencer Walt de que iria resultar. Missão cumprida!

Obrigado, Frank Thomas!

O génio desta cena é o eixo central do tema explorado no filme. A lealdade de Lady surge como contrapeso à liberdade de Tramp. Ela debate-se com a sua lealdade aos seus donos, ao bebé e à tia Sarah, bem como com o novo vínculo que partilha com Tramp depois de ele a ter ajudado num momento de necessidade. Este conflicto interno é maravi
lhosamente ilustrado na icónica cena do jantar de esparguete. Ao início, Tramp não dá importância ao comentário de Tony de "assentar com esta". Quando o prato de esparguete com almôndegas é colocado na mesa, ele come muito mais do que a Lady.

Como ele não faz refeições regulares, está mais interessado na comida do que na serenata, mas quando acaba por mastigar a ponta oposta do mesmo fio de esparguete e acaba por beijar Lady, algo muda dentro dele. Ele esboça um sorriso. Lady reage como uma verdadeira dama, de forma recatada, mas o olhar do Tramp altera-se quando olha para Lady e ele empurra a última almôndega na direcção ela. Isto é mais do que um presente — é um sacrifício!


Já tinha arriscado a vida para a proteger dos ferozes cães vadios do beco, mas abdicar da refeição para lhe oferecer a última almôndega é um sacrifício. Ele está a colocar o bem-estar dela acima do seu. Ele já não é apenas um despreocupado vagabundo; está a começar a considerar a ideia de pertencer a alguém. Logo após o jantar, os dois cãezinhos dão um passeio demorado pelo parque e deixam as suas pegadas no cimento fresco. É uma promessa silenciosa vinda do Tramp, porque o cimento, uma vez endurecido, é imutável. Este momento prenuncia a sua transformação final; é um desejo que ambos carregam. 

A Lady está tão feliz por deixar a sua pegada no cimento como o Tramp. No entanto, ela não está disposta a abdicar da família por uma vida de aventuras ao ar livre e o Tramp abana a cabeça e acompanha-a de volta para casa.Ainda há reminiscências do seu desejo de absoluta liberdade, mas uma parte dele compreende a lealdade inabalável de Lady. 

Infelizmente, Lady acaba num canil rodeada de cães de todas as raças sem coleiras ou licenças, e testemunha em primeira mão o que o Tramp lhe estava a tentar dizer. Infelizmente, os humanos podem ser terríveis para com os cães... Nem todos os cães serão adoptados por boas famílias. Alguns destes cães serão eutanasiados (como o pobre Nutsy). O melhor amigo de um cão nem sempre é um humano. Não é o caso de Lady, cujo número de licença garante que a tia Sarah será contactada pelos funcionários do canil para a ir buscar, mas a sua experiência no canil marca-a profundamente.

Não se sente traída apenas pelos donos, mas também pelo Tramp, quando descobre os rumores sobre ele. Apesar de se sentir envergonhada pela sua experiência no canil, Jock e Trusty, os seus fiéis amigos, apoiam-na e querem ajudá-la da melhor forma possível. 

Quando o Tramp regressa para pedir desculpa com um presente, Jock e Trusty defendem Lady, mas ela garante-lhes que se pode defender sozinha. Ela confronta o Tramp sobre os rumores que o rodeiam e diz que não precisa que ele a proteja. Tramp abandona a casa, desolado. Ao ver o rato a subir pela janela, Lady começa a ladrar e o Tramp regressa sem pensar duas vezes para a ajudar, já que ela está presa à sua casota por uma coleira.

Sem a menor hesitação, o Tramp entra em casa e inicia uma luta feroz com um rato maléfico. A tia Sarah, Jock e Trusty interpretaram mal as ações do Tramp, mas Jim Dear e Darling confiaram na sua Lady e, depois de verem o rato morto, convenceram-se de que o Tramp fora injustamente acusado. Jock e Trusty partem em busca da carruagem (como forma de expiar o seu anterior comportamento) e conseguem detê-la e salvar o corajoso cão de um destino cruel. Lady guia os seus donos para salvar Tramp da sua situação potencialmente fatal. É um momento glorioso em que as lealdades de todas as personagens convergem. 


Depois disso, Tramp é adoptado pela família de Lady e eles formam a sua própria família com quatro adoráveis ​​cachorrinhos. E, claro, o Vagabundo ganha a sua própria coleira e licença e aprende que a verdadeira lealdade e o compromisso amoroso são mais importantes para ele do que a independência sem objectivo.

Acima de tudo, Walt Disney queria uma família; ele pedia a todos os funcionários que o tratassem por "Walt", praticava desporto com os seus artistas e foi por isso que construiu o estúdio de Burbank. Existem muitos outros filmes sobre a ligação entre cães e humanos como "Hachiko", "A Dog's Purpose", ou "Homewards Bound - the incredible journey" (também dos estúdios Disney) que nos tocam o coração. "A Dama e o Vagabundo" é um dos primeiros filmes a explorar o poder duradouro da lealdade como base de uma estrutura familiar sólida e mostra-nos que, independentemente de onde viemos, um coração leal pode encontrar um lugar onde pertencer.


24 de janeiro de 2025

Thorpedo Anna é cavalo do ano de 2024



Thorpedo Anna teve uma vitória triunfal no Kentucky Oaks Stakes (G1) e o público rendeu-se à poldra filha de Fast Anna. 

O treinador Kenny McPeek sempre esteve muito impressionado com a sua poldra. Thorpedo Anna sabia que era boa e comportava-se dessa forma. O treinador disse que ela "exalava classe".

Depois de três vitórias dominantes consecutivas, os adeptos e comentadores perguntavam-se como se sairia Thorpedo Anna contra os potros. Para a corrida mais importante do fim do verão, a Travers Stakes (G1), Thorpedo Anna deixou bem claro que não importava a pista ou o adversário. Ela venceu o campeão do Kentucky Derby (G1) Fierceness por uma margem confortável e acabou o ano com mais uma vitória no Breeders Cup Distaff (G1). 

Ela conquistou o Eclipse Award para melhor cavalo do ano de 2024 com 193 votos. Uma vitória retumbante e merecida!

Espero que 2025 lhe traga tantos triunfos como 2024 trouxe.

                                                      

31 de março de 2014

O Melhor Ouvinte



Desde a minha meninice que oiço dizer que os cães compreendem o que sentimos (muito melhor do que outras pessoas). 

Com o passar dos anos, fui-me apercebendo que a sabedoria popular acertara mais uma vez. Ou isso, ou o meu cão estava envolvido numa intrincada conspiração para dar razão à teoria de que os cães nos conhecem como ninguém (incluindo nós mesmos).

Sim, em muitos e bons anos de convivência, sem voluntárias confissões da minha parte, o meu cão deu provas de uma compreensão profunda sobre mim.

Agora sei porquê. Finalmente! Graças a investigadores húngaros do centro de investigação etnológico MTA-ELTE e pela Universidade Eotvos Loránd. Segundo o estudo feito por eles, os cérebros dos cães e dos humanos são muito parecidos.

Quando um cão ouve a voz humana, são activadas certas áreas do cérebro, semelhantes às dos humanos. Este estudo publicado na revista científica Current Biology conclui que "em ambas as espécies, é ativada uma região próxima do lobo temporal, onde se observa uma reação mais intensa sempre que é ouvido um som considerado 'feliz'". 

Um grupo de cães e de humanos foram testados numa ressonância magnética enquanto eram submetidos a sons humanos – felizes e tristes. O estudo concluiu que os nossos cérebros e os dos nossos melhores amigos são curiosamente parecidos. 

"As nossas descobertas sugerem que [os cães e os humanos] utilizam também mecanismos cerebrais semelhantes para processar informações sociais, o que pode apoiar o sucesso da comunicação vocal entre as duas espécies", conta o coordenador do estudo, Attila Andics.

Claro que os cães têm respostas mais fortes no que toca aos seus pares. Os humanos, também! Mas os cães reagem mais a sons não vocais do que os humanos. 

Esta é uma nova porta que se abre para os investigadores perceberem como é que o nosso melhor amigo interage connosco. 

Uma coisa é certa: com uns ouvidos mais sensíveis e um nariz (infinitamente) mais sensível do que o dos humanos, não é de admirar que os nossos amigos nos conheçam como nenhum amigo humano alguma vez será capaz!

27 de fevereiro de 2014

Uma Viagem Fascinante

Para quem cresceu a ler os livros do Nils Holgersson, da autora sueca Selma Lagerlöf, certamente se lembrará de como é percorrer a Suécia nas costas de um ganso.

Poucos talvez se lembrarão do episódio da águia Gorgo mas, se sempre quiseram saber como é andar às cavalitas de uma águia, aqui vos deixo um vídeo que encontrei e que mostra a maravilha que é ser-se ave.

Vejam aqui.

3 de fevereiro de 2013

Não se vê todos os dias...

... mas é lindo de se ver! Li uma notícia enternecedora no The Sun.

Reino Unido. Uma história de amizade entre dois "inimigos naturais". Judy Godfrey-Brown é dona de Terfel, um cão que sofre de cataratas e tem muita dificuldade em orientar-se em casa, vive confinado à sua cama. Quando a dona resolveu adoptar uma gata, mudou para sempre a vida do seu cão cego. 

Terfel e a gata Pwditat tornaram-se grandes amigos, sendo ela a "guia" do Terfel em casa e na rua. 

Judy Godfrey-Brown disse ao The Sun: "A Pwditat parece ter percebido de imediato que o Terfel é cego e usa as patas para o guiar. Estão sempre colados um ao outro e agora até dormem na mesma cama".

Terfel e Pwditat