28 de junho de 2014

A Derradeira Qualidade

Os grandes escritores nunca são grandes demais: eles retêm o poder e a perspicácia de admitir que a humildade é a maior das virtudes.

23 de junho de 2014

The Nature of Courage

Courage is resistance to fear, mastery of fear--not absence of fear. Except a creature be part coward, it is not a compliment to say he is brave; it is merely a loose misapplication of the word.



– Mark Twain – Pudd'nhead Wilson

18 de junho de 2014

Writer's Passion

“Be passionate about what you write, believe in your ability to convey timeless ideas, and let no one tell you what you're capable of.”
― Christina Westover

13 de junho de 2014

Trechos do Desassossego (8)

Posso pensar em dormir. Posso sonhar de sonhar. Vejo mais claro a objectividade de tudo. Uso com mais conforto o sentimento externo da vida. E tudo isto, efectivamente, porque, ao chegar quase à esquina, um virar no ar da brisa me alegra a superfície da pele. Tudo quanto amamos ou perdemos - coisas, seres, significações – nos roça a pele e assim nos chega à alma, e o episódio não é, em Deus, mais que a brisa que me não trouxe nada salvo o alívio suposto, o momento propício e o poder perder tudo esplendidamente.

De repente estou só no mundo. Vejo tudo isto do alto de um telhado espiritual. Estou só no mundo. Ver é estar distante. Ver claro é parar. Analisar é ser estrangeiro. Toda a gente passa sem roçar por mim. Tenho só ar à minha volta. Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato. Sou uma criança, com uma palmatória mal acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta. Vivem sombras que me cercam - só sombras, filhas dos móveis hirtos e da luz que me acompanha. Elas me rondam aqui ao sol, mas são gente.

Meditei hoje, num intervalo de sentir, na forma de prosa de que uso. Em verdade, como escrevo? Tive, como muitos têm tido, a vontade pervertida de querer ter um sistema e uma norma. E certo que escrevi antes da norma e do sistema; nisso, porém, não sou diferente dos outros.

     Analisando-me à tarde, descubro que o meu sistema de estilo assenta em dois princípios, e imediatamente, e à boa maneira dos bons clássicos, erijo esses dois princípios em fundamentos gerais de todo estilo: dizer o que se sente exactamente como se sente - claramente, se é claro; obscuramente, se é obscuro; confusamente, se é confuso -; compreender que a gramática é um instrumento, e não uma lei.

     Suponhamos que vejo diante de nós uma rapariga de modos masculinos. Um ente humano vulgar dirá dela, "Aquela rapariga parece um rapaz". Um outro ente humano vulgar, já mais próximo da consciência de que falar é dizer, dirá dela, "Aquela rapariga é um rapaz". Outro ainda, igualmente consciente dos deveres da expressão, mas mais animado do afecto pela concisão, que é a luxúria do pensamento, dirá dela, "Aquele rapaz". Eu direi, "Aquela rapaz", violando a mais elementar das regras da gramática, que manda que haja concordância de género, como de número, entre a voz substantiva e a adjectiva. E terei dito bem; terei falado em absoluto, fotograficamente, fora da chateza, da norma, e da quotidianidade. Não terei falado: terei dito.

     A gramática, definindo o uso, faz divisões legítimas e falsas. Divide, por exemplo, os verbos em transitivos e intransitivos; porém, o homem de saber dizer tem muitas vezes que converter um verbo transitivo em intransitivo para fotografar o que sente, e não para, como o comum dos animais homens, o ver às escuras. Se quiser dizer que existo, direi "Sou". Se quiser dizer que existo como alma separada, direi "Sou eu".

     Mas se quiser dizer que existo como entidade que a si mesma se dirige e forma, que exerce junto de si mesma a função divina de se criar, como hei-de empregar o verbo "ser" senão convertendo-o subitamente em transitivo? E então, triunfalmente, antigramaticalmente supremo, direi "Sou-me". Terei dito uma filosofia em duas palavras pequenas. Que preferível não é isto a não dizer nada em quarenta frases? Que mais se pode exigir da filosofia e da dicção?

     Obedeça à gramática quem não sabe pensar o que sente. Sirva-se dela quem sabe mandar nas suas expressões. Conta-se de Sigismundo, Rei de Roma, que tendo, num discurso público, cometido um erro de gramática, respondeu a quem dele lhe falou, "Sou Rei de Roma, e acima da gramática". E a história narra que ficou sendo conhecido nela como Sigismundo "super-grammaticam". Maravilhoso símbolo! Cada homem que sabe dizer o que diz é, em seu modo, Rei de Roma. O título não é mau, e a alma é ser-se.


Bernardo Soares – Livro do Desassossego




Feliz 126º aniversário, Fernando!

7 de junho de 2014

Perda

Quando te encontras frente ao abismo, lembra-te que há uma diferença colossal entre tropeçar e cair; quando te encontras num local mais descontraído, tropeçar e cair parecem sinónimos.

2 de junho de 2014

Feliz 126º Aniversário, Fernando!




"Uma exposição e uma mesa-redonda, são duas iniciativas promovidas pela Universidade Fernando Pessoa, em colaboração com o Instituto Cervantes de Lisboa, para comemorar os 126 anos do nascimento do poeta, que se assinala a 13 de Junho. Exposição de 20 de Maio a 20 de Junho 2014. Mesa-redonda com a presença de Laura Pérez Vernetti dia 13 de Junho 2014."


Fonte: Casa Fernando Pessoa


28 de maio de 2014

Festival do Desassossego





FESTIVAL DO DESASSOSSEGO

CASA FERNANDO PESSOA, 10 a 13 de Junho

PROGRAMA



10 Junho

16.00 – Sessão inaugural

Leituras cruzadas – poetas e escritores lêem textos de outros autores de língua portuguesa

com Cíntia Moscovich, José Luiz Tavares, Maria Lúcia Dal Farra, Nuno Costa Santos

Moderação de António José Borges

17.30 – Homenagem ao pessoano Haquira Osakabe (1939-2008)

com Jerónimo Pizarro, José Miguel Wisnik, Maria Lúcia Dal Farra

21.00 – Aula-show Tom Jobim

(local: Jardim de Inverno do Teatro São Luiz)

com Arthur Nestrovski, Jaques Morelenbaum, José Miguel Wisnik, Paula Morelenbaum



11 Junho

17.00 – Literatura em tempo de crise

com Almeida Faria, Ana Paula Tavares, Cíntia Moscovich, José Carlos de Vasconcelos, Teolinda Gersão

Moderação de Rui Lagartinho

18.30 - Escrever poesia, ficção, canções, teatro - para dizer o quê, a quem?

com Aldina Duarte, Maria Lúcia Dal Farra, Jaime Rocha, Pedro Mexia

Moderação de Ana Sousa Dias



12 de Junho

16.30- A construção das musas e dos musos

com António Carlos Cortez, Hélia Correia, Miguel Manso, Raquel Nobre Guerra

Moderação de Luís Ricardo Duarte

18.00 - O cânone literário na era da multiplicação dos prémios

com Cíntia Moscovich, José Eduardo Agualusa, Miguel Real, Vasco Medeiros Rosa

Moderação de Luís Ricardo Duarte

22.00 – Espectáculo “Verbo Pessoa” pelo Teatro Tapa-Furos



13 de Junho

16.00 - A literatura tem género e gerações?

com Isabela Figueiredo, José Mário Silva, Mário de Carvalho, Tatiana Salem Levy

Moderação de Ana Sousa Dias

17.30 - Escritor, editor, tradutor : como convivem estes personagens numa só pessoa?

com Francisco José Viegas, Jorge Reis-Sá, Margarida Vale de Gato, Maria do Rosário Pedreira, Richard Zenith

Moderação de Rui Lagartinho

22.00 – * Espectáculo de Paulo Bragança (bilhete: 5 euros)





Entrada livre (excepto *) no limite dos lugares disponíveis.

O acesso ao auditório por elevador é vedado após o início das sessões.


 

Fonte: Casa Fernando Pessoa

23 de maio de 2014

Sem Culpa

A culpa nunca salvará ninguém – nem quem a aplica, nem quem a recebe. Só a compreensão, de nós e dos outros, pode restaurar a humanidade aos seres humanos.

13 de maio de 2014

Sono e Loucura


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre 
mim —

Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
É o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para 
isso.

O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo-andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de 
alguém.

De quem?,
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono!...






Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exactamente na cabeça.

Meu coração estoirou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a serapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!
Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...


–– Álvaro de Campos