13 de maio de 2016

A Chama da Vida

Concentra-te, e serás sereno e forte;
Mas concentra-te fora de ti mesmo.
Não sê mais para ti que o pedestal
No qual ergas a estátua do teu ser.

Tudo mais empobrece, porque é pobre.



Da lâmpada nocturna
A chama estremece
E o quarto alto ondeia.

Os deuses concedem
Aos seus calmos crentes
Que nunca lhes trema
A chama da vida
Perturbando o aspecto
Do que está em roda,
Mas firme e esguiada
Como preciosa
E antiga pedra,
Guarde a sua calma
Beleza contínua.


–– Ricardo Reis


13 de abril de 2016

Trechos do Desassossego (19)

O mundo, no qual nascemos, sofre de século e meio de renúncia e de violência – da renúncia dos superiores e da violência dos inferiores, que é a sua vitória. Nenhuma qualidade superior pode afirmar-se modernamente, tanto na acção, como no pensamento, na esfera política, como na especulativa. A ruína da influência aristocrática criou uma atmosfera de brutalidade e de indiferença pelas artes, onde uma sensibilidade fina não tem refúgio. Dói mais, cada vez mais, o contacto da alma com a vida. O esforço é cada vez mais doloroso, porque são cada vez mais odiosas as condições exteriores do esforço.

Hoje sou ascético na minha religião de mim. Uma chávena de café, um cigarro e os meus sonhos substituem bem o universo e as suas estrelas, o trabalho, o amor, até a beleza e a glória. Não tenho quase necessidade de estímulos. Ópio tenho-o eu na alma.

O ter tocado nos pés de Cristo não é desculpa para defeitos de pontuação’. Se um homem escreve bem só quando está bêbado dir-lhe-ei: embebede-se. E se ele me disser que o seu fígado sofre com isso, respondo: o que é o seu fígado? É uma coisa morta que vive enquanto você vive, e os poemas que escrever vivem sem enquanto.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse. Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu veto manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

A arte consiste em fazer os outros sentir o que nós sentimos, em os libertar deles mesmos, propondo-lhes a nossa personalidade para especial libertação. O que sinto, na verdadeira substância com que o sinto, é absolutamente incomunicável; e quanto mais profundamente o sinto, tanto mais incomunicável é. Para que eu, pois, possa transmitir a outrem o que sinto, tenho que traduzir os meus sentimentos na linguagem dele, isto é, que dizer tais coisas como sendo as que eu sinto, que ele, lendo-as, sinta exactamente o que eu senti. E como este outrem é, por hipótese de arte, não esta ou aquela pessoa, mas toda a gente, isto é, aquela pessoa que é comum a todas as pessoas, o que, afinal, tenho que fazer é converter os meus sentimentos num sentimento humano típico, ainda que pervertendo a verdadeira natureza daquilo que senti.


Bernardo Soares – Livro do Desassossego



13 de março de 2016

Fado Cumprido

Cada dia sem gozo não foi teu:
Foi só durares nele. Quanto vivas
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega

A natural ventura!



Cada um cumpre o destino que lhe cumpre.
E deseja o destino que deseja;
                Nem cumpre o que deseja,
                Nem deseja o que cumpre.

Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
                Que a Sorte nos fez postos
                Onde houvemos de sê-lo.

Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube que de que nos coube.
                Cumpramos o que somos.
                Nada mais nos é dado.


–– Ricardo Reis


13 de fevereiro de 2016

O Erro e o Inverno

Aqui, neste misérrimo desterro
Onde nem desterrado estou, habito,
Fiel, sem que queira, àquele antigo erro
Pelo qual sou proscrito.
O erro de querer ser igual a alguém
Feliz, em suma — quanto a sorte deu
A cada coração o único bem

De ele poder ser seu.



Breve o inverno virá com sua branca
        Nudez vestir os campos.
As lareiras serão as nossas pátrias
        E os contos que contarmos
Assentados ao pé do seu calor
        Valerão as canções
Com que outrora entre as verdes ervas rijas
        Dizíamos ao sol
O ave atque vale triste e alegre,
        Solenes e carpindo.
Por ora o outono está connosco ainda.
        Se ele nos não agrada
A memória do estio cotejemos
        Com a esperança hiemal.
E entre essas dádivas memoradas
        Como um rio passemos.


–– Ricardo Reis


Trechos do Desassossego (18)

Com que luxúria e transcendente eu, às vezes, passeando de noite nas ruas da cidade e fitando, de dentro da alma, as linhas dos edifícios, as diferenças das construções, as minuciosidades da sua arquitectura, a luz em algumas janelas, os vasos com plantas fazendo irregularidades nas sacadas – contemplando tudo isto, dizia, com que gozo de intuição me subia aos lábios da consciência este grito de redenção: mas nada disto é real!

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.

Feliz quem não exige da vida mais do que ela espontaneamente lhe dá, guiando-se pelo instinto dos gatos, que buscam o sol quando há sol, e quando não há sol o calor, onde quer que esteja. Feliz quem abdica da sua personalidade pela imaginação, e se deleita na contemplação das vidas alheias, vivendo, não todas as impressões, mas o espectáculo externo de todas as impressões alheias. Feliz, por fim, esse que abdica de tudo, e a quem, porque abdicou de tudo, nada pode ser tirado nem diminuído. […] Nada me satisfaz, nada me consola, tudo - quer haja sido, quer não – me sacia. Não quero ter a alma e não quero abdicar dela. Desejo o que não desejo e abdico do que não tenho. Não posso ser nada nem tudo: sou a ponte de passagem entre o que não tenho e o que não quero.

Perco-me se me encontro, duvido se acho, não tenho se obtive. Como se passeasse, durmo, mas estou desperto. Como se dormisse, acordo, e não me pertenço. A vida, afinal, é, em si mesma, uma grande insónia, e há um estremunhamento lúcido em tudo quanto pensamos e fazemos.

Considerar todas as coisas que nos sucedem como acidentes ou episódios de um romance, a que assistimos não com a atenção senão com a vida. Só com essa atitude poderemos vencer a malícia dos dias e os caprichos dos sucessos.



Bernardo Soares – Livro do Desassossego



13 de janeiro de 2016

A Anjos e Deuses

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos
A visão perturbada de que acima
De nós e compelindo-nos
Agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem.
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,

Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.




Aos deuses peço só que me concedam
O nada lhes pedir. A dita é um jugo
                E o ser feliz oprime
Porque é um certo estado.
Não quieto nem inquieto meu ser calmo
Quero erguer alto acima de onde os homens
                Têm prazer ou dores.


–– Ricardo Reis


13 de dezembro de 2015

Trechos do Desassossego (17)

Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros uma amabilidade de viagem. […] E esta a minha moral, ou a minha metafísica, ou eu: Transeunte de tudo - até de minha própria alma -, não pertenço a nada, não desejo nada, não sou nada - centro abstracto de sensações impessoais, espelho caído sentiente virado para a variedade do mundo. Com isto, não sei se sou feliz ou infeliz; nem me importa. 

A única comunicação tolerável é a palavra escrita, porque não é uma pedra em uma ponte entre almas, mas um raio de uma luz entre astros. […] Escrever é objectivar sonhos, é criar um mundo exterior para prémio [?] evidente da nossa índole de criadores. Publicar é dar esse mundo exterior aos outros; mas para quê, se o mundo exterior comum a nós e a eles é o "mundo exterior" real, o da matéria, o mundo visível e tangível? Que têm os outros com o universo que há em mim?

O gládio de um relâmpago frouxo volteou sombriamente no quarto largo. E o som a vir, suspenso um hausto amplo, retumbou, emigrando profundo. O som da chuva chorou alto, como carpideiras no intervalo das falas. Os pequenos sons destacaram-se cá dentro, inquietos.

Estou triste de sentir, e reflicto-o à janela ao som da água que pinga e da chuva que cai. Tenho o coração opresso e as recordações transformadas em angústias.

Ah, quem me salvará de existir? Não é a morte que quero, nem a vida: e aquela outra coisa que brilha no fundo da ânsia como um diamante possível numa cova a que se não pode descer. E todo o peso e toda a mágoa deste universo real e impossível, deste céu estandarte de um exército incógnito, destes tons que vão empalidecendo pelo ar fictício, de onde o crescente imaginário da lua emerge numa brancura eléctrica parada, recortado a longínquo e a insensível.



Bernardo Soares – Livro do Desassossego



13 de novembro de 2015

Os Deuses da Incerteza


Acima da verdade estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.

Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,

Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.




Aguardo, equânime, o que não conheço —
Meu futuro e o de tudo.
No fim tudo será silêncio, salvo
Onde o mar banhar nada.


–– Ricardo Reis


7 de novembro de 2015

Too Young

I am young, I am twenty years old; yet I know nothing of life but despair, death, fear, and fatuous superficiality cast over an abyss of sorrow. I see how peoples are set against one another, and in silence, unknowingly, foolishly, obediently, innocently slay one another. I see that the keenest brains of the world invent weapons and words to make it yet more refined and enduring. And all men of my age, here and over there, throughout the whole world see these things; all my generation is experiencing these things with me. What would our fathers do if we suddenly stood up and came before them and proffered our account? What do they expect of us if a time ever comes when the war is over? Through the years our business has been killing;—it was our first calling in life. Our knowledge of life is limited to death. What will happen afterwards? And what shall come out of us?


Erich Maria RemarqueAll Quiet On The Western Front

1 de novembro de 2015

"Man is in the Forest"

O jovem Walter


A minha infância foi preenchida com a magia dos filmes de Walt Disney. Milhões de crianças tiveram experiências semelhantes ao longo das décadas, suponho. Admiro-lhe a arte e o engenho. No entanto, nunca tinha lido uma biografia do homem que mudou a paisagem da cultura popular Norte-americana.


Esta biografia, escrita meticulosamente por Neal Gabler, relata e comenta a vida de Walter Elias Disney, ou simplesmente, Walt, como ele insistia que os seus colaboradores o tratassem. É uma biografia honesta que navega pelos triunfos e fracassos do homem, sem nunca se esquivar ao lado mais constrangedor, ao lado mais obscuro do magnata de Hollywood.


Com mais de 800 páginas (200 de notas biográficas) não é para leigos curiosos, mas sim para os aficionados de um dos maiores génios criativos do séc. XX. Gabler descreve a infância feliz passada em Marceline, no estado do Missouri. A família Disney passou cinco anos em Marceline, onde o pai tinha uma pequena quinta.  


Walt entregou jornais em Chicago, mentiu sobre a sua idade para poder conduzir uma ambulância da Cruz Vermelha na Primeira Guerra Mundial e atirou-se de cabeça no seu sonho.



Disney, o empreendedor


Disney sempre sentira um entusiasmo pela indústria da animação. Os seus primeiros projectos levam-no à Califórnia, onde criou a sua primeira personagem, Oswald, the Lucky Rabbit. Essa foi também a sua primeira derrota, mas desse desaire nasceu a personagem que hoje o mundo conhece e adora – Mickey Mouse.


O imortal rato, baptizado pela mulher de Walt, e a quem ele próprio deu voz no grande ecrã, tornou-o famoso com o filme Steamboat Willie. No início da Grande Depressão, um dos períodos mais negros da história dos Estados Unidos, o ratinho animado enriqueceu o seu criador e deu trabalho estável a centenas de trabalhadores. Desde então, Walt Disney não parou de produzir filmes animados.



Walt e o irmão Roy

É fascinante conhecer o homem imaginativo e inspirado,  que conduziu os seus animadores por essa aventura inaudita de produzir a primeira película animada a conquistar o coração do público e o respeito dos críticos – Branca de Neve e os Sete Anões.

Disney era um perfeccionista para quem era bastante difícil de trabalhar e não tinha o costume de partilhar o palco com os seus colaboradores. Alguns dos seus empregados sentiam-se traídos pelo patrão, que não lhes dava o crédito devido nas obras em que tanto tinham trabalhado. Outros havia que tinham uma lealdade canina a Walt Disney, que lhes proporcionava todas as condições que eles desejavam para desenvolver as suas ideias, ainda que com as respeitosas distâncias. Um dos artistas conta que, quando o patrão estava no corredor, dava uma sonora tossidela e alguém gritava a famosa fala do Bambi: “O homem está na floresta”, que significava perigo iminente. 

O perfeccionista em acção


A lealdade dos seus trabalhadores foi severamente testada na infame greve de 1941, que ficou conhecida como a guerra civil da animação. Muitos artistas abandonaram o homem que consideravam injusto para com eles e com o seu trabalho. Tudo isto, numa altura em que o estúdio estava enterrado em dívidas.

Como sempre fizera, Walt Disney ignorou os seus opositores e acabou por dar a volta por cima... Apesar do sucesso de filmes como Dumbo e Cinderela, o estúdio nunca mais foi o mesmo... Walt Disney também não.


Neal Gabler não doura a pílula em relação aos dois lados de Walt Disney. Vemos claramente que o homem que inspirava os seus animadores com a sua inesgotável imaginação, engenho e perseverança; que tirava deles os melhores desenhos; que procurava constantemente melhorar os seus projectos – algo que chamava de “plusing” e que não aceitava nada menos do que a perfeição por parte de todos os seus colaboradores era o mesmo homem que tinha dificuldade em aceitar outro ponto de vista que não o seu; era paranóico em relação a comunistas e a possíveis traições por parte dos seus trabalhadores; e que tentava viver as suas fantasias contra tudo e contra todos, enlouquecendo os seus credores.

Uma dessas fantasias era a Disneylândia e o projecto da cidade futurista na Florida. De facto, após a greve de 1941, o empreendedor perdeu muito do seu entusiasmo pelos filmes animados e decidiu criar outra empresa – a WED (acrónimo do seu nome) para criar um parque temático que iria revolucionar o conceito de parques temáticos nos Estados Unidos. A WED representava um regresso às origens para Disney – uma empresa feita por poucos associados – como nos tempos em que ele e um punhado de animadores criavam as animações do rato Mickey.


Esta biografia tem inúmeras notas interessantes, e é um bom exemplo de como escrever uma biografia sem endeusar ou demonizar o homem, explorando todas as facetas da sua vida.


Disney, inspirando os seus animadores

O livro encontra-se disponível na WOOK com o título Walt Disney: The Biography





Também pode ser encontrado na Amazon, com um título ligeiramente diferente: Walt Disney: The Triumph of the American Imagination.